20.3.07

Cocktail de Genes


Vinha no caminho para casa a pensar em tudo o que herdamos e em tudo o que nós somos... Não posso falar sobre ninguém, mas posso falar sobre mim e sobre o pouco que de mim conheço. Sei ser muito o meu pai, em traços físicos e personalidade... da minha mãe ganhei a sensibilidade, um pouco da gigante força que tem e a teimosia. Mas há traços que são nossos e apenas nossos... e foi por aí que comecei hoje a divagar enquanto conduzia... Andei em colégios, vivi rodeada pelas chamadas "pessoas de bem", de berço, toda a minha infância e adolescência. Durante esse período o André podia ser apenas o André, a Sara a Sara, o Miguel o Miguel... Não havia apelidos, já que todos os que me rodeavam eram filhos de beltrano ou citrano, todos gente de bem. Entrei para o liceu e as coisas mudaram. Sempre que qualquer pessoa entrava no meu circulo de relacionamento era bombardeada pelo meu pai com a mesma pergunta:
- Como se chama?
- Sofia...
- Mas Sofia quê?
- Sei lá...
Mais cedo ou mais tarde acabava por saber o raio do apelido e lá lhe dizia... Se fosse um nome sonante:
- Andersen? Por acaso o pai dele não se chama "nome"?
- Sei lá...
Se o nome não lhe soasse a nada, por ser conhecido publicamente ou por ser um apelido familiar respondia com - Ahh...
Em algumas vezes que lhe disse apelidos ,de facto acabámos por mais tarde chegar à conclusão que era um neto de um amigo dele de infância, um filho de alguém com quem trabalhou, um sobrinho de uma grande amiga... Criavam-se laços especiais, falava-se da vida dos avós, pais e tios... e a relação mantinha-se... mas só porque existia um elo especial entre o meu pai e alguém na vida deles...
Infelizmente para o meu pai sempre fui "neutra"... ligava aos nomes por ligar, mas nunca me ligava às pessoas por interesse... chegava a fugir... fugia da pedantice. Confesso que por vezes me senti inferior na viragem adolescência/juventude, por estar rodeada de pedantice... e apenas fui inferior porque me deixei levar pelo peso dos nomes... o liceu estava cheio deles... e assim comecei a dar-me com os Silvas só Silvas, os Santos só Santos e todos os nomes que sózinhos, sem "de's" e "da's" e "e's", não eram sonantes. Houve algumas vezes que cheguei a casa com novos amigos e sendo ou não fase da moda de calças rasgadas e aspecto desmaselado, o meu pai delicadamente cumprimentava, oferecia a casa e dáva um exemplar banho de diplomacia e cortesia às minhas visitas. Depois de sairem, nem me perguntava os apelidos... não valia a pena.
Por fim, tinha alguma desilusão, algum deles me magoava e chegava a casa triste e deprimida... Não valia a pena sequer perguntar. Sempre me leu de frente e do avesso e graças a Deus nunca me disse "Eu bem te avisei...", porque nunca me avisou. Deixou-me sempre experimentar, tomar as minhas decisões se eu achasse que eram as certas... se eu caísse, lá estava ele para me apanhar, sem me recriminar e a olhar-me com um olhar triste por ver a minha decepção. Desiludi-me muito também com as pessoas chamadas "de bem" e com essas o meu pai teve a mesma reação, provavelmente com uma dose extra de tristeza, já que eram os "dele" que me magoavam... e não podia ser...
Acho que o único defeito que alguma vez lhe apontei e lhe disse na cara, naquela fase avariada e de afirmação que é a juventude, foi - És um snob! - Não ligou, e hoje que penso nisso é coisa que não é, de facto. Quis o meu bem, quis saber com quem andava e, se fosse filho, neto ou sobrinho de alguém que ele conhecia sentia-se seguro, sentia que estaria em boas mãos... e com 70 e tal anos na altura, conhecia realmente meio mundo... É justo... É um medo natural dos pais... "Diz-me com quem andas, digo-te quem tu és" lá diz o povo, e por muito que tentemos mudar, a sociedade leva-nos involuntariamente a pensar assim.
Fiz as minhas amizades, criei a minha redoma sem pensar em nomes sonantes, aumento a minha redoma com aqueles que me fazem sentir bem, que têm amor escrito por toda a pele... são amor.

Sei que o meu pai quando hoje me olha reconhece isso, sei que sente orgulho na filha que tem e que sabe que o vejo a ele e à minha mãe como pilares, o exemplo a seguir em toda a minha caminhada. Sou um cocktail de genes fantásticos, as qualidades são todas deles, os defeitos são todos meus, mas as qualidades deles juntas neste cocktail fazem com que alguns dos meus muitos defeitos por vezes fiquem escondidos.

Santo cocktail que me dá força, que me faz suar de amor por todos os poros e me faz encaixar em qualquer sitio.



19.3.07

Almofadas

- Estou bem... a sério, juro que estou... no meio de tudo... estou bem... não me caiem lágrimas... que estranho não é? Estou cá, estou lá... estou no meio... salto para lá quando as tristezas e medos se aproximam, salto para cá quando este espaço me parece confortável... quando sinto que este chão onde piso não me pica... será por isso que gosto tanto de almofadas? almofadas grandes e fofinhas, alegres e coloridas... cheias de brilhos, missangas e vidrinhos... Estou bem, juro que estou... mas hoje tive de saltar um pouco para lá... o chão daqui hoje sem motivo aparente começou a revoltar-se... e o que me irrita, agora que estou lá e vejo o de cá, é que revoltou-se porque eu sem querer o quis... em bom tempo saltei... mas de lá irrito-me e vejo que sem querer levei a revolução comigo... de lá vou atirar umas almofadas alegres e coloridas, umas brancas também para me acalmar o espirito e vou correr, vou voar e mergulhar neste canto fofinho...
Pic: Delacorr

17.3.07

Magia de um Anjo chamado Rita

Gosto de pintura, sempre gostei... Não sou conhecedora..., mas tenho algumas bases por influência do meu pai e dos amigos que o rodeavam. Já em criança ía a exposições de pintura com o meu pai. Aprendi a não valorizar uma pintura pelo seu tamanho, mas pelo que ele nos transmite. Aprendi a não valorizar uma obra por ser bonita e ficar bem numa sala, mas pelo que sinto quando a vejo. Logicamente não aprecio pinturas que me deprimem...

Há quatro anos conheci uma artista que pintava quadros lindos, com alma e sentimento, tudo com as mãos... fiquei fascinada. Fiquei fascinada pela pessoa que vi e pelo seu amor e ternura na pintura. Nunca a esqueci e hoje é uma das fieis companheiras do meu coração. É difícil acharmos que nos podemos surpreender ainda mais com alguém que achamos ser maior que tudo. Mas é verdade. Hoje limpei a alma, encantei-me, bebi elixires de beleza e abri os olhos para ver e devorar tudo. Comentários como "(...) transmite-nos o prazer de ficar perante o quadro e fruir a alegria e a beleza de uma obra que é, sem dúvida, uma dávida enorme e simultânea de amor e de arte.*" não são de todo exagerados... são a realidade... fico sem palavras... Um sentimento enorme invade-me quando ao apreciar cada uma das obras sinto a minha Rita...

Que orgulho... como cresceu, como está cada vez mais bonita... Pinturas como "Magia das Fadas", "Alegria", "Virgem Maria", "Pólos", "Sonho" e "Árvore da vida" deixam-me encantada... Não tenho palavras que os descrevam... são fortes, doces, cheios de energia, cheios de vida... são... brilhantes. Ilustrações sobre fundo negro que transmitem paz? É verdade... nunca pensei... mas foi o que senti... A minha justificação para que os quadros não valem pelo tamanho? "Adoração" é a resposta... Tão pequenino e lindo... Em "Pólos" amei a ligação entre eles... E a reacção estranha quando vi "Grande Espiral"... sorri... sem saber da existência do quadro, escrevi há pouco tempo sobre o tema...

E podia ficar aqui horas a escrever e a descrever tudo o que senti e vi no espaço de meia hora... por sentir que todas as palavras que escrevo são infinitamente pequenas para descrever alguém como Rita Oom, o meu anjo azul.

Beijos enoooormes elevados a mais infinito



Pintura: Rita Oom
* Comentário de Jorge Gomes - CNAP


Exposição de pintura de Rita Oom
CNAP - Clube Nacional de Artes Plásticas
Rua Professor Francisco Gentil, Nº 8 Loja D/E, 1600-624 Lisboa
De 8 de Março a 29 de Março
Entre as 11h e as 14h e entre as 15h e as 19h de segunda a sábado

Eu sei...

Tudo pode acontecer...
Eu sei...
Eu sei o que é hoje...
Amanhã?
Quem sabe?
Eu não...

Eu sei...
Eu sei que não sei
o que amanhã trará

Eu sei...
Eu sei que o bonito de hoje
pode ser feio amanhã...

Eu sei...
Eu sei que as lágrimas de hoje
podem ser a alegria de amanhã...

Eu sei...
Eu sei que aqueles que amo
estarão sempre aqui comigo...

Eu sei...
Que quem está hoje
pode não estar amanhã...

Eu sei...
Que tudo o que vejo hoje
pode desaparecer num segundo...

Eu sei...
Sei que o que guardo hoje
estará para sempre comigo...

Eu sei...
Eu sei que posso não ser amanhã...


Não sei o amanhã...
Não me interessa...

Sei o que hoje vejo...
Sei o que hoje sinto...
E guardo...
Guardo o que vejo...
Guardo o que sinto...
Sorrio com o que guardo
o que guardo com carinho...

E sei...
Que cada sorriso que guardo...
me sorri quando preciso...

E sei...
Que cada momento guardado...
me aconchega o destino...

Eu sei...
Que sonho olhar para o céu e ver flores...
e de braços abertos mergulhar...
Mergulhar num mar azul intenso...
e orientada pelas flores
nadar e tocar em estrelas...

15.3.07

Pinta...

Faz do chão cheio de papel a tua tela
Agarra nas tintas coloridas e pinta-te
pinta com todas as tintas que tens à mão

O que pintas?
tudo com as cores que quiseres...
usa a tua imaginação

Queres pintar bébés?
Pinta meu amor...
Queres pintar um Sol?
oh! Se faz favor...

Queres pintar bonecos
por-lhes chuchas e ó-ós?
Pinta meu amor...

Queres encher as mãos de tinta
manchar o papel de amarelo e azul?
Queres misturar cores e
pintar, pintar, pintar?
Pinta... se faz favor..
Pinta o que quiseres...
Pinta como quiseres...

Amo ver o teu ar deliciado a pintar cada dedo de cada cor...
Amo ver o teu lado efusivo e feliz quando te sentes confiante por teres muito espaço para pintar...
Amo ver o teu lado dedicado e atento, cuidado e carinhoso quando só tens um bocadinho muito pequenino de espaço para pintar...

Mãe, vamos Pintar?
Sim, meu amor...

14.3.07

Abre-te!

Tenho de ligar
Tenho de fazer
Tenho de estar
Tenho de ir
Tenho de correr
Tenho de escrever
Não posso falhar
Tenho de ser
Quero parar
Quero sentir
Quero ouvir
Pernas Parem!
Cabeça Relaxa!
Olhos molhem-se!
Coração?
Acorda e sente...
Bate rápido
Bate lento
e SENTE!
Tenho a chave do teu cofre
Fechei-te e protegi-te...
Mas não quero mais...
Agora...
Corro para o abrir...
Tenho de correr
Não posso falhar
Quero sentir

Pic: Foux

13.3.07

A lua toda!

"I pictured a rainbow
You held it in your hand
I had flashes but
You saw the plan
I wandered out in the world for years
While you just stayed in your room
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
The whole of the moon

You were there in the turnstiles
With the wind at your heels
You stretched for the stars
And you know how it feels
To reach too high (too high)
Too far (too far)
Too soon (too soon)
You saw the whole of the moon

I was grounded
While you filled the skies
I was dumbfounded by truth
You cut through lies
I saw the rain dirty valley
You saw "Brigadoon"
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
Yeah

I spoke about wings
You just flew I wondered
I guessed and I tried
You just knew and I sighed
And you swooned
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
The whole of the moon
The whole of the moon

The torch in your pocket
And the wind on your heels
You climbed on the ladder
And you know how it feels
To get too high (too high)
Too far (too far)
Too soon (too soon)
You saw the whole of the moon
The whole of the moon

Unicorns and cannonballs
Palaces and Piers
Trumpets, towers, and tenaments
Wide oceans full of tears
Flags, rags, ferryboats
Scimitars and scarves
Every precious dream and vision
Underneath the stars
Yes, you climbed on the ladder
With the wind in your sails
You came like a comet
Blazing your trail
Too high (too high)
Too far (too far)
Too soon (too soon)
You saw the whole of the moon

The whole of the moon
Yeah, you saw the whole of the moon"

Musica: Waterboys
Pic: boyangz

12.3.07

Inventário

Dou por mim ultimamente fechada...
fechei-me para inventário, mantive a fachada

Encontro momentos escondidos...
Afasto o pó e vejo o que me esqueci
Ponho o gira-discos a tocar
sinto as sensações que um dia senti

Visto camisas velhas rasgadas
Lembro-me de namoricos e cowboiadas

Descubro fotos soltas, perdidas e esquecidas numa caixa
encontro-me em cada foto numa enorme gargalhada

Abro o cofre de madeira pintada com a fechadura rebentada
Leio postais, cartas, papeis pequenos de tantos que já não me lembrava

Fecho os olhos e inspiro...
Sinto o cheiro a madeira e a papel envelhecido...
Imagino-o e inventario-me...
Sinto o velho, o ontem e inspiro-o...

É todo meu...

Fecho-me para inventário mas sinto
e é por isso que na minha fachada sorrio


8.3.07

Frases que ficam VI

- Acabei de descobrir que a bimby tambem faz detergente para a máquina da louça e com a vantegem de ser 100% biologico! - Psique
- A BIMBY VAI SALVAR O PLANETA - CMS

Sonhos vertiginosos


Divagava no meio do nada
não sei onde estava
não sei por onde andava
mas divagava...

Saltava por janelas
mudava de espaço
abria portas
tanto tempo fechadas

Entrava em cena
encontrava gente
e assim de repente
tudo parava

E os espaços inundados
de som, risos e sorrisos
ficavam vazios
calados e parados...
O tempo parava
e eu afastava o olhar...

Quando algo focava
vertiginosamente me apressava
a alcançar com os meus olhos
aquilo que observava...

E vertiginosamente o meu corpo
alcançava o espaço que cobiçava...
encontrei-te a ti e a ti também...
Se também lá estavas?
Não sei...

Virava o olhar, focava alguém
o meu corpo alcançava-o...
Mas os meus olhos...
os meus olhos não o viam...

Com leves lembranças
procurei rodando
o espaço onde antes estava...

Olhei e cheguei...
vi-te de costas e a ti também...
viraram-se quando os chamei...

E de repente...
tu já não eras tu e tu também...
já não era a ti que via ou tu que aparecias
Era alguém que eu não conhecia...


Pic:
lucas ogasawara

Ritinha:

Já está iluminado!
Cheio de luz!
Cheio de luz para ti, que irradias luz por todo o lado...
Hoje, hoje dia 8 de Março...
BRILHA, brilha mais que nunca!
Os meus olhos brilham de orgulho e alegria por ti...
FORÇA e Ri-te com as cócegas na barriga...
É apenas nervoso miudinho...

Beijos enormes
Abraços muito, muito apertados!
Adoro-te!

Pintura: Rita Oom

Come what may


"Suddenly the world seems such a perfect place
Suddenly it moves with such a perfect grace
Suddenly my life doesn't seem such a waste
It all revolves around you

And there's no mountain too high no river too wide
Sing out this song and I'll be there by your side
Storm clouds may gather and stars may collide
But I love you until the end of time
"


Ost Moulin Rouge
Pic: moulin rouge2 por lunha

7.3.07

Tema da Zu


"Encontrei o teu olhar perdido
numa mágoa sem sentido
deixa dizer-te um dia
és aquilo que eu mais queria ver...

sorrir simplesmente ver-te sorrir
dou-te o mundo pra te ver sorrir
deixo tudo basta
pedires-me um segundo
És o meu corpo caído,
prendes o meu ser despido
caminho sem coragem,
mas levo a tua imagem a...
sorrir simplesmente ver-te sorrir
dou-te o mundo pra te ver sorrir
deixo tudo basta
pedires-me um segundo
Amor escuta agora
o silêncio que te adora
vem ter comigo...
vem...
vem ter comigo..."


Ver video

Letra: Yolanda Soares
Música: Abel Chaves

Força

Recebi o seguinte email hoje:

"Muitas vezes tem que se reinventar a força ...
Beijos grandes da tia


"Ser forte é amar alguém em silêncio.
Ser forte é irradiar felicidade quando se é infeliz.
Ser forte é tentar perdoar alguém que não merece perdão.
Ser forte é esperar quando não se acredita no retorno.
Ser forte é manter-se calmo no momento de desespero.
Ser forte é demonstrar alegria quando não se sente.
Ser forte é sorrir quando se deseja chorar.
Ser forte é fazer alguém feliz quando se tem o coração em pedaços.
Ser forte é calar quando o ideal seria gritar à todos a sua angústia.
Ser forte é consolar quando se precisa de consolo.
Ser forte é ter naquilo que não se acredita.
Por isso, mesmo diante da dura realidade e por mais difícil que a vida possa parecer:

Ame-a e seja Forte!" Autor desconhecido"


Obrigada tia... milhões de beijos!

6.3.07

Tão simples não é?

Nestes últimos tempos escrevi tanto ao meu pai, que me desabituei de escrever qualquer coisa diferente. No momento em que escrevo dou por mim a esforçar-me para não mudar o sentido do texto e a escrever para alguém. Parei... Palavras, where are you?. Esqueci-me delas... ou não...
O meu pai já está em casa, acamado é certo, mas tem momentos em que demonstra ter vontade de recuperar... Hoje quis que o pusessem na cadeira de rodas para receber a neta sentado! E a neta? Abraçou-o e deu-lhe um grande beijo. Lindos... que orgulho! Parei... Palavras, where are you?. Aqui dentro algo me diz "agradece, agradece, agradece", mas algo grita "Como?! Como se agradece o amor?!"... Amando... Tão simples, não é? Por cada sorriso que recebi, por cada palavra escrita, falada, por cada abraço, por cada silêncio reconfortante, por toda a companhia, por todos os fios que puxaram e me agarraram... por tudo e por tanto que nos últimos dias vi, senti e aprendi, por tudo... Obrigada! Para vocês todo o meu AMOR.

3.3.07

Sabes...

Sabes, estou feliz...
Sim, estou feliz por te ver a reagir...
Lentamente... mas reages...
Consigo ponderar a hipótese de recuperares algumas das coisas que já achava irrecuperáveis, mas já não me prendo a elas. Não me prendo, para não me ferir numa próxima queda. Estou feliz agora, amanhã não sei... "Deixa fluir" disse a Rita, estou a deixar... "Isto também há-de passar" disse a Bee, começo a acreditar...
E deixo fluir e penso... no meio de tudo tenho TANTO...
Nesta semana e picos que passou, passei por imensas confusões, guerras interiores, esperanças, não esperanças, enfim... Mas agora olho para trás, olho para hoje, para ontem e para tudo o que me rodeia e penso na sorte que tenho... Estou em paz comigo por sentir que um dia quando fores não há-de ficar nada por dizer, por fazer... Estou em paz por nunca te ter recriminado de nada, culpado de nada, por tu e a mãe serem SEMPRE os meus Ídolos, o exemplo a seguir. Sei que nem eu nem vocês somos perfeitos, mas tudo o que vejo é positivo... só vejo amor, carinho, amizade, paz e dedicação... Aos meus olhos vocês são perfeitos... E tenho tanta sorte... Por tudo... A imagem que tinha dos hospitais públicos era tão, tão ruim... Fiquei em choque com as urgências do hospital, com o quadro que vi... mas desde que foste para o quarto... tudo mudou... nunca imaginei que do pessoal médico, de enfermagem e auxiliar pudesse existir tanto carinho... Os cuidados de saúde são essenciais mas o carinho, a paz... fazem toda a diferença. Ainda estou deliciada pelo carinho e dedicação que todos te têm dado... E tenho tanta sorte, por ter uma mãe coragem... Um marido dedicado que na minha ausência se torna também numa mãe carinhosa e dedicada e não me recrimina por eu estar pouco tempo em casa... Uma filha linda, linda, linda que no pouco tempo que ultimamente lhe dedico, me bombardeia com bombons, sorrisos luminosos, gargalhadas felizes e ternura, muita ternura... E tenho tanta sorte, por ter os tios que tenho... incansáveis no apoio à minha mãe, na sua ternura e companhia... E nos meus amigos... os meus amigos... que me ouvem e me aturam, me escrevem e em mim pensam, que me dizem que lhes faço falta... que me sorriem, me dão alento e que estão aqui sempre comigo...
Sinto amor por todo o lado... e é esse amor que me faz deixar fluir...
Vês pai? É esse amor que nos rodeia que me faz sorrir mesmo quando me apetece chorar...
Vês pai? A sorte que temos?
Vês pai? Hoje vejo... e vou tentar ver todos os dias...
Adoro-te

1.3.07

Frases que ficam V

- Não és uma montanha, és a lua... mas não és uma montanha... - Rita
- Deixa fluir - Rita
- És muito Zenki - Rui
- O doutor é um borracho - Mãe
- Força pequena Grande Lua - Ana
- "Já percebi que não tens face, tens energia, vitalidade, subtileza e sinceridade... (...) Tens exactamente o rosto que preciso de ver. Tu não tens nome, não te podem rotular. O teu nome varia consoante a minha necessitade, és homem, és mulher, companheiro, amiga, Pai, Mãe, irmão, mestre e aprendiz. Não tens corpo, tens presença, ocupas todo o espaço vazio em redor de mim. Ao pé de mim não tens sede nem fome, és alimento. E também não tens tempo... tens a eternidade da minha vida." - CdaPluma
- Mãe... o avô tá milhori? - minha lua pequenina
- Anda cá, agora sou eu que quero falar contigo - Major Alvega
- Olha filhota, fico cá até sexta - Tia G.
- Foram duas horas muito dificeis de passar... sempre a olhar para o telemovel - Mãe
- Já sabe... estamos aqui para o que precisar - João
- Não queres jantar cá em casa? Para te distraíres... - Mimi

- Lua, Anda cá... viste? - JC
- Desculpa-me... - Pai
- Não me canso de olhar para ti... - Pai
- Cuida da tua mãe - Pai

Não sei sequer como me sinto...

A tristeza das seis às oito já começa a ser uma constante...
Já não sou optimista para não cair de tão alto...
Não sou pessimista para não ficar sempre em baixo...
E esta tristeza escondida por detrás de um sorriso e de muita calma, começa a ser rotineira...
O resto do dia? Se me dispersar, até acabo por ultrapassar... e bem...
Não quero entrar na rotina, mas também não quero andar entre topos de montanha e vales... o meu coração não aguenta...
Acreditar... não acreditar... não sei...

Vais para casa na segunda, para o teu canto... Fico contente, mas tenho medo...
Sim, tenho medo...
Tenho medo que o ires para casa seja aquele passo que falta para a tua partida... e ao mesmo tempo sinto paz...
Tenho medo que o ires para casa seja o final da tua queda, lenta, dolorosa e triste...
Tenho medo...
E com esse medo esqueço-me que podes recuperar... e que ainda te posso ter mais um bocadinho...
Devia focar-me nisso... acreditar na tua recuperação e em ter-te mais um bocadinho... mas não consigo... hoje doi-me demais ver-te cansado, doi-me demais ver-te baralhado...
Não sou, não estou optimista nem pessimista...
Estou numa luta intensa entre a razão e o coração... e nenhum deles vence por completo...
Estou confusa... não sei sequer como me sinto... nem o que digo...

27.2.07

Choro...

Hoje estou mais triste que ontem...
O não te entender e o facto de tu sentires que eu não te entendo e perderes-te, deixa-me perdida...
Só quero chorar...
Deixa-me chorar aqui escondida, sem que vejas como me sinto...
Estou com a cabeça a rebentar e agora, neste momento sinto-me sozinha...
Sei que não estou, mas sinto-me sozinha de tão perdida que estou...
Só queria ver-te a sorrir e feliz...
Não queria sentir-te triste, perdido e revoltado...
Choro... Agora choro...
Ponho a mão na cabeça a ferver...
Enxaguo as lágrimas, o pingo no nariz e acalmo...
e daqui a pouco tudo volta ao mesmo...
Volto a chorar, a ferver e enxaguar...

26.2.07

Acreditar...

Já te reconheci...
Gostei de te encontrar...
Gostei de ver os teus olhos a responderem...
Depois de te piscar o olho feita macaca, tu piscaste o olho para mim também...
Soube tão bem...
Com a tua mão anteriormente mais fraca, a que hoje é a mais forte, percorreste os traços do meu rosto como se me quisesses decorar...
Já respondes ao que te perguntamos, umas com muito mais dificuldade que outras, mas percebes e esforças-te tanto para corresponder... Olhei para ti e disse "que orgulho, és o meu menino..." e és... és tão doce...
Pediste-me com muita dificuldade para eu me cuidar, não percebi o que disseste a seguir... sorri e disse-te que tratava de mim e da mãe, para não te preocupares...
Sabes, cheguei a não acreditar que aguentásses... Agora acredito que te vais aguentar mais um bocadinho...
Cheguei a pensar que não ía ganhar mais nenhum Daqueles sorrisos, mas com o sorriso que deste hoje, acredito que aquele sorriso vem aí a caminho... Senti que o teu sorriso de hoje foi dificil, esforçado mas muito sentido... senti que sorriste para me fazeres feliz...
Mas sabes, ainda não acredito em muito mais... as nossas conversas, tu a passeares pela casa são cenários que ainda não consigo visualizar... Vejo-te tão cansado, por vezes sinto que queres mesmo descansar...
Exigo muito ao querer mais?
Só quero ver-te feliz...

Adoro-te muito pai


Post Scriptum:
Estive ainda há pouco com a nossa pequena Lua a pintar um desenho para amanhã te levar... Foi ela que pintou tudo com as suas mãozinhas pequeninas... "Um prexente pa o avô ficari milhori".

Lembras-te?

Não imagines...
Lembra-te...
Lembra-te de me ires buscar à escola, dos meus coleguinhas correrem para ti. Lembras-te? Vinham ter comigo a gritar "O teu pai já chegou!". Dávas-me a mão e saímos do colégio... Estava a começar a aprender a ler e todos os sitios por onde passávamos queria ler... Passávamos por uma garagem onde dizia "Camiões" e eu lia sempre "Camões"... Não me corrigias, apenas sorrias e festejavas o meu feito. Não me lembro do dia em que li "Camiões", mas lembro-me das várias vezes que li "Camões"... Descíamos a rua e, ao passarmos pelo muro do jardim, parávamos junto aos pequenos buracos de irrigação do muro, para ver os bichinhos de conta... Às vezes saíam lagartixas e assustava-me, mas voltava sempre para ver os bichinhos de conta... Passávamos para o outro lado da rua e, sempre a descer junto à quinta, saltava para apanhar as bagas vermelhas que pendiam das árvores que envadiam o passeio... Sempre de mão dada, sempre a saltar para levar bolinhas vermelhas para casa... O cheiro era e ainda é inconfundível... a terra molhada... depois passávamos pelo caseiro da quinta e cumprimentávamo-lo... descíamos a rua e entrávamos na nossa... cumprimentávamos o merceeiro, o sapateiro, o outro merceeiro, os senhores da oficina... Chegávamos a casa, tirávas-me o casaco, a bata e beijávamos a mãe...
Lembras-te?
Passaram-se 27 anos...
Hoje já leio "Camiões", já não há buraquinhos no muro do jardim, as bagas quando pendem já me batem na cabeça, o caseiro, os merceeiros, o sapateiro já lá não estão...
Mas os cheiros, as sensações e os momentos vivem no meu coração.

25.2.07

Diz-me...

Não sei de nada...
Não sei se acredito, sabes?
Custa-me não acreditar, mas também me custa pedir para que vivas mais um pouco a sofrer...
Tu, que sempre foste orgulhoso, de certo não gostas de te ver assim... Será que te vês?
Já me surpreendeste tanto em recuperações fantásticas e improváveis... Mas agora... não acredito... algo em mim me diz que não vais voltar a conversar comigo sobre banalidades... algo me diz que o teu sorriso já não vai ser de felicidade... algo me diz que não vais mais te levantar... Quero tanto estar completamente enganada... Quero tanto acreditar...
Estás tão cansado... Estive hoje quatro horas encostada à tua cama, a fazer-te festas na mão... Só abrias os olhos quando o barulho inundava a sala... aí levantava-me metia conversa contigo e tu... tu anuias, olhavas-me mas depois dispersavas... onde estás?
Tento estar calma e em paz, mas há alturas em que o meu coração bate tão rápido, quase fico sem fôlego... A dor que tenho no peito não me larga... Sinto-me tão alheada... Não sei de nada...
Escorreram-me lágrimas quando hoje ao despedir-me de ti, olhei para ti, apertei o meu coração com a mão e disse-te "Adoro-te muito pai"... abracei-te na maca para que não visses os meus olhos enxaguados e disse-te "Até Já"... ouviste o que te disse? entendes o quanto gosto de ti?
Custa-me que fiques ali deitado sozinho sem a minha presença e a da mãe...
Diz-me que vens para casa...
Diz-me que vais voltar a dar-me aquele sorriso...
Diz-me...
Quero acreditar...

Caíste...

Caíste...
Caiu o teu corpo...
e tu, caíste...
Olhei para os teus olhos e não te encontrei...
O meu cansaço já era tanto que quase adormeci em pé com a cabeça encostada ao teu peito...
Já não sei o que sinto...
Já não sei o que quero...
Ao fim de mais um dia, ganhei um teu sorriso, um teu reconhecimento...
Reagiste e até comeste... de olhos fechados, mas comeste...
Respondeste-me monosilabos perceptiveis quando te falei... entendi-te...
Mas o teu sorriso não foi o teu sorriso...
Foram apenas os teus lábios a reagirem ao meu chamamento...
Os teus olhos não me reconhecem... não brilham, não sorriem...
Sabes? Ontem de madrugada no meio daquele desespero, no meio da luta para te porem a soro, quando no meio da tua força inesperadamente imensa, saltou a agulha e me esguichaste de sangue... o meu mundo rodopiou, os meus ouvidos latejaram e também eu caí... rodopiei para o chão... e caí... Não queria! Não queria que a mãe ficasse ainda mais preocupada, não queria que ela sentisse o mundo nas costas... não a queria deixar desamparada... falhei! Agarrei em mim ainda zonza e fui para ao pé de ti e da mãe... Transfiguraste-te... Sabes? Tive medo... cheguei a revoltar-me por não achar justo... Não tens culpa... Não eras tu que ali estavas... Não era a nós que estavas a ver... Olhei para a mãe... a boca tremia, começou a deixar-se ir abaixo... Eu não chorei! Disse à mãe entre-dentes "Aguenta-te... não ligues... não é ele..." Mas partiu-me ver o que vi... Juro que faço tudo para não pensar neste episódio... Juro que não é a imagem que tenho de ti... mas hoje? Hoje enquanto separava a roupa para lavar, agarrei nas calças manchadas com o teu sangue e não as consegui mandar para lavar... Não me perguntes porquê... não as consigo lavar...
Muita paz meu pai... estou sempre contigo.

23.2.07

Tremi, tremi, tremi...

Enregelei...
Parei...
Tremi...
Achei ter encontrado a razão para a minha dor no peito....
"O teu pai não reage" disse a minha mãe... senti a sua voz tremida e perguntei-lhe "Chamaste o INEM?"...
Continuei a tremer... peguei na mala e saí... "Não se preocupem, vai tudo correr bem..." disse eu a descansar os coleguinhas e a mim...
Vinte minutos de condução segura sempre a tremer... A rádio ligada bem baixinho... nem a ouvi... estava lá, mas nem a ouvi... tremi, tremi, tremi e só dizia "Espera por mim, Espera por mim...".
Estacionei o carro, vi a ambulancia e subi...
Quando te vi? Apático, catatónico... tremi mas sorri... viste-me e sorriste... reagiste quando me viste, sorriste quando te sorri... Desde aí? Não me ouvias, punha-me à tua frente e deixaste de reagir... Som, visão não estavam ali mais uma vez... Toquei-te, beijei-te as mãos, fiz-te festas e beijei-te a face... devolveste-me o beijo... sorri. Tão valente que és! Ainda disseste quando partias para a ambulância sem nós que nunca mais nos ias ver, no meio de palavras atabalhoadas... respondi-te que não! Íamos ter contigo.
Foram dez longas horas de hospital... horas de sufoco por te ver só e abandonado, por esbarrar com o mundo triste e deprimente em que vivemos... que desespero... mas que quebravam sempre que olhava ao longe para a tua maca e tu me vi-as e acenávas... No meio de tudo, eras o mais calmo... um Senhor!
Sabes ainda agora me doiem os olhos, a testa, a cara, o peito... O susto, o medo e a confrontação com tudo o que habitualmente me alheio, fez-me muito mal... mas o teu sorriso, o saber que a minha presença fez-te melhorar, a tua face rosadinha ainda há pouco quando te deixei, faz-me sorrir... Amanhã será um novo dia...
Dorme com os anjos meu pai...
eu vou deitar-me com o teu sorriso

21.2.07

Espiralis

... e espiralis...
sempre as mesmas curvas...
voltar sempre ao inicio
mas cada vez mais distante da origem...
curvas sobre curvas
ciclos sobre ciclos
curvas e ciclos
iguais mas diferentes

... e espiralis...
sempre as mesmas curvas...
esta mais distante da última
a última mais distante que a anterior...


... e espiralis...
sempre a mesma distância...
umas mais lentas...
outras mais rápidas...
nas mais lentas derrapo...
descaio e volto a subir...
nas mais rápidas escorrego
e deixo-me cair...

... e espiralis...
caí e depois?
parei numa curva antiga...
direita e com algum atrito...
e voltei a subir...

... e espiralis...
subida fácil...
até à curva da caída...
subida lenta logo a seguir...

... e espiralis...
subo...
descaio...
subo um pouco
e depois caio
agarro
e volto a subir...
Uhm...está ali uma curva
será que a consigo subir?
voltarei eu a cair?

... e espiralis...
se cair volto a subir!


Pic: marestella