Mostrar mensagens com a etiqueta Lembro-me.... Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lembro-me.... Mostrar todas as mensagens

17.10.08

A Copa

Em todos os nossos locais temos momentos, de todos eles memórias.

Da sala o aconchego e sobretudo o orgulho do meu pai nela. Dizia-me “Li estes livros todos. Duvido que algum dia os leias”. Olhava prolongadamente para os quadros e passeava-se por ela. Mas a televisão que durante muitos anos pouco aparecia por estar socialmente escondida no móvel da televisão, acabou por teimosia ser um dos actores principais daquela divisão.

Do meu quarto, os beijos de boa noite e os momentos de adolescência em que de headphones gigantes punha a música no máximo e sonhava com um namorado que fazia as coisas principescas mais extraordinárias para me encantar.

Do quarto dos meus pais, o refúgio sempre que tinha um pesadelo, o sítio onde jogava uma espécie de andebol com o meu pai, onde líamos revistas e jornais, e local dos doces sorrisos ternurentos e das lágrimas mais tristes, mas sobretudo um local de paz.

Mas há um local que desde sempre tenho boas recordações. A Copa…

A copa onde comíamos por sermos apenas três e não justificar o trabalho de comer na sala de jantar. Não são só lembranças de refeições, são lembranças de conversas, são lembranças de reunião, numa divisão que sempre encantou pela luz, pela paisagem esverdejante que torna a janela num quadro, que encanta mesmo quando chove, quando faz frio, quando anoitece e sobretudo das muitas vezes que há fogo de artificio no alto do parque. Esta copa tem algo de especial… Por alguma razão que não sei explicar… No dia em que o meu pai partiu, o que começou por ser o local de almoço para cinco, tornou-se rapidamente numa sala de estar para uns doze. Se fomos para a sala? Penso que sim, mais para o fim do dia. Continuo a passar mais tempo lá do que em qualquer outro canto da casa, mesmo que o quarto dos meus pais ou a sala me aconcheguem. E ainda ontem, depois do jantar do meu aniversário lá estava eu e 3 das minhas meninas lindas sentadas em doce cavaqueira à volta da mesa, em reunião, como parece ter sido sempre…


À copa!

17.8.08

Medos

Em pequena via sombras e figuras em todos os relevos que eram levemente iluminados pela luz do corredor que pedia para ficar sempre aberta. Todas as noites tapava a cabeça com o lençol deixando apenas uma nesga para respirar. De manhã quando acordava com a Rosa a trazer-me papa nestum com mel, dizia-me sempre docemente: "oh menina, quando é que deixa de ter medo e de se tapar assim inteirinha? Nem sei como é que respira...". De noite sempre que saía da sala e tinha de percorrer o corredor para os quartos, o método repetia-se... Abre a luz, volta a traz para apagar a última, vira-te rápido, não olhes para trás, passa pela última luz que acendeste, abre a outra, volta atras para apagar a última, vira-te rápido, não olhes para atrás, passa pela última luz e abre a luz do quarto. Era sempre assim... Um dia, anos mais tarde, a Rosa foi-me levar a papa logo pela manhã e a luz do corredor estava apagada e eu com a cabeça destapada. Cheia de orgulho disse-lhe "Vês Rosa? Já sou crescida". Passei a adorar dormir no escuro cerrado, mas a ginástica de luzes do corredor, de vez enquando ainda ocorria. Mas achava que não mais tinha medo do escuro. Mas há poucos dias de repente e no meio do nada vi que tinha. Não do escuro escuro, mas do escuro de lugares desconhecidos. No meio do medo que descontrolavelmente me percorreu chegou a força que o venceu. "Pensa no teu pai, pensa no teu pai!" e aos poucos o medo desapareceu. Não voltei a sentir esse tipo de invasão do meu espaço até há uns dias quando percorria o castelo de Tavira e dei po mim de repente numa rua estreita e subitamente escura durante o dia... do lado esquerdo as escavações arqueológicas do antigo palácio Corte-Real. Primeiro o coração a bater freneticamente e um segundo depois o medo dispersou e virou curiosidade e encanto... sempre me fascinou a arqueologia e mais me fascina pensar que por debaixo das nossas casas existe tanta história, tantas casas e pegadas de alguém.

Agora estou numa varanda debaixo de um céu escuro e estrelado com uma lua cheia que ontem esteve temporariamente vazia e tão igual à minha, e penso - tenho medo? - oh...de tanta coisa! E se calhar o escuro é o menor deles... Mas hoje mais do que nunca sei e confio na mão que me defende e me acarinha.

7.10.07

Encontros

E passaram-se o quê... dezoito anos?

Estava na esplanada do jardim, a fotografar os reflexos dos edifícios no lago, a ouvir a minha filha ao fundo a imitar o grasnar dos patos, a ver o céu, a sentir o sol a adorar os meus braços, a aquecer as minhas costas... Meio cá, meio lá. A observar e inspirar tudo o que me rodeia, a pensar como tudo não é coincidente. A lembrar-me do marasmo da manhã e do nada que assimilei para mim. Mais uma vez, tudo decorria em câmara lenta, todos os milésimos de segundo soavam a importantes. De relance algo me captou. Voltei a olhar. Inspeccionei ao detalhe a figura que se encontrava sentada ao meu lado. Desportivo, musculos lisos bem delineados, elegante. Mas algo me fazia voltar a olhar. Eram os olhos... Ao invés de um cabelo curto e moreno, tentei visualizar uma cabeleira loira e lisa. Ao contrário de uma cara com traços rígidos, tentei encontrar umas bochechas rosadas. O telefone tocou... A voz era a mesma, mas mais grossa. Era ele, não era? Fiquei na dúvida enquanto bebia o café. Continuei na dúvida quando me decidi a ir embora. E quando me levantei pensei "Mais vale fazer figura triste do que ficar uma semana a pensar". Aproximei-me da mesa, agachei-me e perguntei:

"Desculpa incomodar... mas... és o André?"

Olhou-me nos olhos e levantou-se de repente. E sem palavras, apenas com o meu nome, abraçou-me ao fim de dezoito anos. E que bem que me soube esse abraço. Ficámos na conversa enquanto a pequena lua e o pai se afastavam para irem brincar com os cágados. Situámo-nos em termos profissionais e de vida. Apontei para a pequena lua e disse "É a minha filha". Comentou que tinha reparado nela a brincar mas que não se tinha apercebido da minha presença. E como é usual em amigos e colegas de infância começámos a falar daqueles com quem ainda mantemos contacto. Ficámos com os contactos um do outro para ver se "um dia destes" combinamos um jantar com todos aqueles que conseguirmos apanhar o rasto.

O engraçado de tudo isto é que de facto a vida surpreende-me a cada dia que passa. Só precisamos de estar atentos a tudo o que por nós passa.

Tenho encontrado vários nossos ex-colegas do colégio, graças à renovação de geração no colégio, a geração dos nossos filhos, a qual coincide com a geração dos pais, mas ao fim de dezoito anos, num lugar onde nada me o faria encontrar, encontro-o assim sem que nada me fizesse esperar.

O mesmo aconteceu com o meu pai e a mãe dele há... vinte e nove anos atrás. Quando depois de anos sem se verem, tendo a última vez sido ainda em Lourenço Marques, se encontraram assim sem que nada estivesse previsto, numa festa de Natal do Colégio dos filhos. De certo que o abraço deles na altura correspondeu em pleno ao saboroso abraço que hoje senti.

Costuma-se dizer que a vida é feita de encontros e desencontros. Eu prefiro o contrário.
Que a vida seja feita de desencontros para por fim, num qualquer lugar, nos podermos encontrar.

É esta a luz...
Acreditar e não desesperar.

26.8.07

Eurovisão...


Ainda há pouco, ao ouvir rádio, voltei mais uma vez atrás no tempo.
No meio de um zapping desenfriado por estações de rádio, à procura de uma estação que estivesse em sintonia com o meu estado de espírito, apanhei a música "Eu sei" da Adelaide Ferreira. Não, não faz de forma alguma o meu género, mas não evita que me relembre da febre dos festivais que percorria Portugal inteiro há uns largos anos atrás.
Literalmente, o país parava. As ruas ficavam desertas como hoje acontece quando a selecção Portuguesa joga uns quartos-de-final de uma competição europeia ou mundial.

Lembro-me de ainda pequena, acho que nem oito anos tinha, ter ido para casa de uma tia minha, para vermos o festival numa televisão a cores. Que alegria... mas também, que tristeza... Portugal one Point, Portugal un Point... Penso que foi quando começámos a ter melhores pontuações que nos começámos a desinteressar. É sempre assim... Ganhar sempre não tem piada, deixamos de apreciar verdadeiramente o sabor de uma vitória. Nunca ganhámos, mas por uns tempos deixámos de estar nos últimos lugares...

Consigo relembrar-me de quase todas as músicas que nos levaram à Eurovisão da Canção, até há música da Lucia Moniz. De umas gosto por entrarem facilmente no ouvido, de outras porque pura e simplesmente me agradam.
O Playback do Carlos Paião... Não vi o festival, mas lembro-me de ainda no infantário estar sentada no chão com os meus coleguinhas, como se estivessemos a viajar de carro, e a cantarolar o refrão.
O Depois do Adeus do Paulo de Carvalho... Não vi o festival, estava na barriga da minha mãe... Mas todos os anos por altura do 25 de Abril, essa música tornou-se inevitável, e de longe uma das músicas portuguesas que mais me encanta.

A música da Dina, Amor de água fresca, apenas e só pelos trocadilhos divertidos que fazía com a letra.
O José Cid... Incontornável... nem que seja pela quantidade de vezes que participou e pelo tipo de música festivalesca que cantava. Se tivesse abanado a cabeça como o Stevie Wonder, de certeza que teria ganho um dos festivais.
"Já fui ao Brasil"... não me lembro do nome do grupo, mas era uma daquelas músicas que entrava no ouvido e frequentemente trauteava.
E as nossas Sara Tavares, Dulce Pontes e Lucia Moniz... Diamantes em bruto ainda por polir...

São estes que ficam...

Não me entristece a decadência do interesse pela Eurovisão da Canção, nem pelos Jogos sem Fronteiras, que antes tanto me divertiam (Eládio no seu melhor...). Mas confesso que sempre que oiço uma das músicas esquecidas dos nossos festivais, gostando ou não gostanto dela, a melancolia bate à porta com um sorriso terno de infância.


15.8.07

Férias



Férias...


Enquanto conto os dias, semanas, para o meu merecido descanso, faço rewind e recordo-me das minhas melhores férias de sempre.


1988!


Sim, tinha namorado. Ou melhor, não tinha... Tinhamos acabado (Ele) assim que o calor começou a apertar. Calor, hormonas, praia, corpos nus... Enfim! Livro mais do que fechado, logo não interessa.

Foram as férias mais movimentadas! Chegava a casa apenas para deixar a roupa para lavar, receber miminhos, fazer nova mala e estar de saída logo no dia seguinte.

Começou com uma semana no Alentejo, numa quinta de uns amigos da minha mãe, de cujos filhos desde sempre me liguei. Entre piscina, cavalos, bons comeretes, barragem, ski aquático e canoas, não descansei. Mas do que mais me lembro com clareza é do armário da TV onde descobrimos montanhas de doces (after heights a rodos e ferrero Rochê), e dos mergulhos a pique na piscina.

Um dia de pausa... e apanhar a camioneta com o PC e os manos DF em direcção a Alcantarilha!
As maiores tropelias... O ex-boyfriend não pode ir, mas estavam lá todos. As minhas manas de coração (as cicerones), a minha primeira grande paixão não correspondida e a sua irmã (com quem vivi grandes tropelias no caminho de e para o liceu). O que mais me lembro? A partida que pregámos aos meninos (planeada 3 semanas antes na Caparica), onde a C estaria embrulhada com ligaduras cheias de ketchup, por ter ido contra uma rocha. Que tansos... Andaram uma manhã inteira na praia a levá-la ao colo e às cavalitas para todo o lado. E eis que à beira mar todos sentados, o J se levanta a correr para a água e a C também começa a correr.
:P As pessoas que estavam na praia e assistiram à cena, fartaram-se de rir. Que figura...
E também me lembro de virmos a nado dos barcos até à praia e de ter ficado para trás... Não tinha nem colchão, nem prancha, nem pés de pato para me aguentar e estava a nadar contra a corrente... argh! não saía do mesmo sitio. E eis que tal e qual Marés Vivas, a minha primeira grande paixão não correspondida, já na areia, olha para trás, vê-me e vem ter comigo. Tirou os pés de pato e colocou-me nos pés. Salva! Muito embora feliz e grata pelo acto, não me apaixonei pelo meu salvador... O primeiro namorado (ex por motivos de calor) ainda ocupava todo o espaço.

Um dia de pausa depois de uma semana muito quente... e ala para o aeroporto! Primeira viagem de avião e sem nenhum adulto. Fui com a Sofia, a filha dos amigos da minha mãe, onde duas semanas antes tinha estado a passar férias. Londres, colégio... 1 mês! As únicas portuguesas na primeira semana, misturadas entre espanhóis, suecos, alemães, irlandeses, suiços e italianos. Estes últimos fizeram a santa revolução na cozinha, porque a comida antes de eles chegarem... sucked!
Éramos as mais novas e confesso que pela idade e pela diferença de culturas cresci bastante. Agradava-me o Stefan, o alemão, e ele também gostava de estar conosco. Comecei, pela convivência com as suecas (que só não andavam totalmente nuas porque lhes chamavam à atenção) a ver que era demasiado maria-rapaz. Sim, comecei a lavar a cara todas as manhãs e a por creme logo de seguida. Comprei camisolas curtas e comecei a mostrar os ombros e a barriga de forma negligé... Comecei a pentear este meu cabelo esquisito e descobri a espuma de volume. Aprendi que condicionador era amaciador e eu e a Sofia ligámo-nos à Karla e à Lydia (espanholas, a primeira filha de escultores a segunda bailarina). Ah! Ainda no colégio recebi um postal da Bélgica do meu primeiro namorado (ex por motivos de calor), o qual hoje leio e vejo o quão simples é, mas que na altura consegui encontrar imensas entre-linhas (amor cego...). Enfim... muitos dias felizes e de crescimento pessoal (principalmente a nível de imagem) e um dia muito triste. O dia em que disseram à Karla (a amiga espanhola) que o pai estava doente e que uma amiga da mãe a ía buscar ao colégio. Todos sentados no front-yard e eis que chega um táxi tipicamente inglês e de lá sai a amiga da mãe e a mãe. A Karla apercebeu-se logo porque é que a mãe estava ali. Correu e atirou-se para os pés da mãe a chorar. Não sei sequer como me senti... mas fez-me mudar a forma de pensar... o amanhã às vezes pode ser tarde... Não me lembro dos últimos dias do colégio, apaguei a partir daí.

Voltei e a 3 de Setembro, ou será que foi 4? Não, foi 3, era o aniversário do J. Recomecei com meu namorado, que tinha sido ex por causa do calor e que agora por começar a esfrear (setembro...) tínhamos que recomeçar. Durou até ao verão seguinte :P

As manas do meu coração continuam aqui (as três) e o namorado (que foi ex por causa do calor e de novo namorado quando o tempo resfriou e de novo ex por motivos muitos anos depois explicados) é o meu mano e amigo de todos os apertos.

:) Faltam 3 semanas para férias!



20.3.07

Cocktail de Genes


Vinha no caminho para casa a pensar em tudo o que herdamos e em tudo o que nós somos... Não posso falar sobre ninguém, mas posso falar sobre mim e sobre o pouco que de mim conheço. Sei ser muito o meu pai, em traços físicos e personalidade... da minha mãe ganhei a sensibilidade, um pouco da gigante força que tem e a teimosia. Mas há traços que são nossos e apenas nossos... e foi por aí que comecei hoje a divagar enquanto conduzia... Andei em colégios, vivi rodeada pelas chamadas "pessoas de bem", de berço, toda a minha infância e adolescência. Durante esse período o André podia ser apenas o André, a Sara a Sara, o Miguel o Miguel... Não havia apelidos, já que todos os que me rodeavam eram filhos de beltrano ou citrano, todos gente de bem. Entrei para o liceu e as coisas mudaram. Sempre que qualquer pessoa entrava no meu circulo de relacionamento era bombardeada pelo meu pai com a mesma pergunta:
- Como se chama?
- Sofia...
- Mas Sofia quê?
- Sei lá...
Mais cedo ou mais tarde acabava por saber o raio do apelido e lá lhe dizia... Se fosse um nome sonante:
- Andersen? Por acaso o pai dele não se chama "nome"?
- Sei lá...
Se o nome não lhe soasse a nada, por ser conhecido publicamente ou por ser um apelido familiar respondia com - Ahh...
Em algumas vezes que lhe disse apelidos ,de facto acabámos por mais tarde chegar à conclusão que era um neto de um amigo dele de infância, um filho de alguém com quem trabalhou, um sobrinho de uma grande amiga... Criavam-se laços especiais, falava-se da vida dos avós, pais e tios... e a relação mantinha-se... mas só porque existia um elo especial entre o meu pai e alguém na vida deles...
Infelizmente para o meu pai sempre fui "neutra"... ligava aos nomes por ligar, mas nunca me ligava às pessoas por interesse... chegava a fugir... fugia da pedantice. Confesso que por vezes me senti inferior na viragem adolescência/juventude, por estar rodeada de pedantice... e apenas fui inferior porque me deixei levar pelo peso dos nomes... o liceu estava cheio deles... e assim comecei a dar-me com os Silvas só Silvas, os Santos só Santos e todos os nomes que sózinhos, sem "de's" e "da's" e "e's", não eram sonantes. Houve algumas vezes que cheguei a casa com novos amigos e sendo ou não fase da moda de calças rasgadas e aspecto desmaselado, o meu pai delicadamente cumprimentava, oferecia a casa e dáva um exemplar banho de diplomacia e cortesia às minhas visitas. Depois de sairem, nem me perguntava os apelidos... não valia a pena.
Por fim, tinha alguma desilusão, algum deles me magoava e chegava a casa triste e deprimida... Não valia a pena sequer perguntar. Sempre me leu de frente e do avesso e graças a Deus nunca me disse "Eu bem te avisei...", porque nunca me avisou. Deixou-me sempre experimentar, tomar as minhas decisões se eu achasse que eram as certas... se eu caísse, lá estava ele para me apanhar, sem me recriminar e a olhar-me com um olhar triste por ver a minha decepção. Desiludi-me muito também com as pessoas chamadas "de bem" e com essas o meu pai teve a mesma reação, provavelmente com uma dose extra de tristeza, já que eram os "dele" que me magoavam... e não podia ser...
Acho que o único defeito que alguma vez lhe apontei e lhe disse na cara, naquela fase avariada e de afirmação que é a juventude, foi - És um snob! - Não ligou, e hoje que penso nisso é coisa que não é, de facto. Quis o meu bem, quis saber com quem andava e, se fosse filho, neto ou sobrinho de alguém que ele conhecia sentia-se seguro, sentia que estaria em boas mãos... e com 70 e tal anos na altura, conhecia realmente meio mundo... É justo... É um medo natural dos pais... "Diz-me com quem andas, digo-te quem tu és" lá diz o povo, e por muito que tentemos mudar, a sociedade leva-nos involuntariamente a pensar assim.
Fiz as minhas amizades, criei a minha redoma sem pensar em nomes sonantes, aumento a minha redoma com aqueles que me fazem sentir bem, que têm amor escrito por toda a pele... são amor.

Sei que o meu pai quando hoje me olha reconhece isso, sei que sente orgulho na filha que tem e que sabe que o vejo a ele e à minha mãe como pilares, o exemplo a seguir em toda a minha caminhada. Sou um cocktail de genes fantásticos, as qualidades são todas deles, os defeitos são todos meus, mas as qualidades deles juntas neste cocktail fazem com que alguns dos meus muitos defeitos por vezes fiquem escondidos.

Santo cocktail que me dá força, que me faz suar de amor por todos os poros e me faz encaixar em qualquer sitio.



26.2.07

Lembras-te?

Não imagines...
Lembra-te...
Lembra-te de me ires buscar à escola, dos meus coleguinhas correrem para ti. Lembras-te? Vinham ter comigo a gritar "O teu pai já chegou!". Dávas-me a mão e saímos do colégio... Estava a começar a aprender a ler e todos os sitios por onde passávamos queria ler... Passávamos por uma garagem onde dizia "Camiões" e eu lia sempre "Camões"... Não me corrigias, apenas sorrias e festejavas o meu feito. Não me lembro do dia em que li "Camiões", mas lembro-me das várias vezes que li "Camões"... Descíamos a rua e, ao passarmos pelo muro do jardim, parávamos junto aos pequenos buracos de irrigação do muro, para ver os bichinhos de conta... Às vezes saíam lagartixas e assustava-me, mas voltava sempre para ver os bichinhos de conta... Passávamos para o outro lado da rua e, sempre a descer junto à quinta, saltava para apanhar as bagas vermelhas que pendiam das árvores que envadiam o passeio... Sempre de mão dada, sempre a saltar para levar bolinhas vermelhas para casa... O cheiro era e ainda é inconfundível... a terra molhada... depois passávamos pelo caseiro da quinta e cumprimentávamo-lo... descíamos a rua e entrávamos na nossa... cumprimentávamos o merceeiro, o sapateiro, o outro merceeiro, os senhores da oficina... Chegávamos a casa, tirávas-me o casaco, a bata e beijávamos a mãe...
Lembras-te?
Passaram-se 27 anos...
Hoje já leio "Camiões", já não há buraquinhos no muro do jardim, as bagas quando pendem já me batem na cabeça, o caseiro, os merceeiros, o sapateiro já lá não estão...
Mas os cheiros, as sensações e os momentos vivem no meu coração.

19.2.07

Mãos da memória

E lembro-me de chegar a casa, a minha mãe sentada no mapple do seu quarto, a poisar o auscultador do telefone e a dizer "Merda!" (a primeira e única vez que vi calão a sair da boca da minha mãe).
- Que foi mãe? - perguntei-lhe eu enquanto lhe via uma lágrima a cair pelo rosto.
- A tua avó morreu, a minha mãe...
Não me lembro de mais nada até ao segundo telefonema... Com um sorriso e um suspiro pousou novamente o telefone e disse - Falso alarme! A tua avó não morreu.
Passaram-se dias, ou será que foram semanas, ou até mesmo meses? Vinha eu do colégio, passei pela papelaria ao fim da minha rua e com um ar de quem estava a fazer o que não deve, comprei um saco cheia de gomas. Saí da papelaria, comi uma goma à socapa e ao virar da esquina dei de caras com o meu pai. "Apanhada com a boca na botija!" - pensei eu e tremi... O meu pai? Nem se apercebeu... deu-me a mão como se tivesse apenas cinco anos e disse-me com doçura:
- Vem, temos de ir para Évora, a avó morreu e a tua mãe está muito triste.
Mais uma vez apaguei tudo o resto... tenho uma vaga ideia da casa dos meus avós cheia de gente, mas já não sei se estou a misturar os momentos com os da partida do meu avô. Só me recordo de observar ao longe na nave principal da igreja o caixão da minha avó, ver a prima Aurélia a levantar o véu que lhe cobria a face e num relance ver as mãos paradas da minha avó, as mãos que eu agarrava poucos meses antes e que docemente beliscava para ver o sangue a passar por aquelas veias espessas. Lembro-me desse sorriso... a olhar para mim com doçura enquanto brincava com as suas mãos. Tudo o resto? Apaguei... Com catorze anos já me defendia...


Pic: Hands by Darac

12.2.07

Passado, presente, futuro

Hoje é um dia especial...
A minha pequena lua foi aceite no colégio onde passei os melhores anos da minha vida!
Sei que os momentos que vivi como criança são únicos, são meus. Sei que os meus melhores momentos em criança serão certamente diferentes dos da pequena lua. Não espero que a minha filha tenha os mesmos momentos que tive, mas sonho e desejo que seja tão ou muito mais feliz que eu.
É um começo... mais um... e eu estou muito feliz!

8.2.07

Damas vs Diogo

Curiosa a nossa memória...
Como de repente por palavras, nomes ou locais nos lembramos de algo há muito escondido...
Com o nome Maluda lembrei-me da última visita do Diogo a casa dos meus pais. Para além de matar saudades, levou consigo um livro com o inventário dos quadros da Maluda. Mais tarde, apareceu com um quadro que tinha acabado de comprar para mostrar ao meu pai. Um aparte, estávamos em 1998 e fiquei extasiada por alguém lhe ter arranjado o pára-brisas do carro que estava rachado em meia-hora! Desde aí nunca mais soubemos dele. O Diogo é filho da tia Graça e do tio António, amigos de longa data do meu pai nos tempos de Lourenço Marques. Mais velho que eu 15 anos (será?) ensinou-me a jogar damas quando tinha doze anos, ainda a tia Gracinha era viva. Lembro-me desse dia... Entrar na sala de estar muito comprida, cheia de aperitivos nas mesas, a tia Gracinha com um lenço na cabeça, mas linda... sempre a achei linda, com porte de princesa. Subi as escadas para ir ter com o Diogo. No hall do andar superior tinha uma grande estante cheia de livros e entrei na sala de estar à direita. Lá estava ele sentado no mapple, tenho ideia que seria de pele... Perguntou-me se sabia jogar às Damas e com um agitar de cabeça respondi-lhe que não. Meia-hora depois já jogava e nem dei pelo tempo passar. Não me lembro de mais nada, nem de me ir embora... Fixei o Diogo às Damas e desde aí sempre que me lembro dele penso em Damas e sempre que jogo Damas lembro-me dele...
Como me lembrei da Maluda? Porque me lembrei dele... Porque me lembrei dele? Porque passada uma década o tio António ligou para os meus pais a perguntar se podia aparecer lá em casa.

3.2.07

A Maravilha de Portugal


Já votei nas sete maravilhas de Portugal...
Castelo de Almourol, Convento de Cristo de Tomar, Mosteiro dos Jerónimos, Palácio Nacional da Pena, Templo Romano de Évora, Torre de Belém e Mosteiro de Alcobaça são os meus contemplados.

Castelo de Almourol e Convento de Cristo de Tomar por associação aos templários, Mosteiros dos Jerónimos e Torre de Belém por serem os monumentos mais imponentes da minha cidade, Mosteiro de Alcobaça por D. Pedro e D. Inez, Templo Romano de Évora por óbvias e naturalissímas razões e por último Palácio Nacional da Pena pela sua magia.

Se fossem as dez maravilhas de Portugal rapidamente adicionaria à minha escolha o Castelo de Monsanto, Palácio da Regaleira e o Castelo dos Mouros, infelizmente não contemplados na listagem dos 21 finalistas.

Mas o meu vencedor? O único, o principal? Palácio da Pena... Mas não vence per si... vence por ele e por tudo o que o rodeia... Pela serra, castelo, palácios, palacetes, ruas estreitas, árvores centenárias, pedras gigantes, mistério, fantasia, magia... O local perfeito...
Quem não vota em Sintra nunca a visitou, nunca se aventurou a subir a serra por entre gigantescos pedragulhos, nunca se deslumbrou em pleno... Serra de Sintra é magia.

Recordo com saudade a tradição do dia dois de Janeiro. Foram quatro anos em que eu e os meus amigos nos enfiávamos no combóio, na estação de Cruz de Pedra em Benfica, logo de madrugada, em direcção a Sintra. Chegados à vila começáva-mos a subir a serra sempre em corta-mato. Nunca percorremos o mesmo caminho, apenas o ínício e o fim eram iguais. O objectivo? Galgar as muralhas do Castelo dos Mouros sempre sob o olhar surpreendido dos turistas. Perdemo-nos imensas vezes, fugimos de cães por inadvertidamente entrarmos em propriedade privada, saltámos muros de três metros, trepámos inconscientemente, passámos por espaços ridiculamente pequenos, escorregámos em folhas molhadas e caímos de alturas ridículas... Chegar a meio do caminho a dizer "não aguento mais..." era uma constante nas meninas... mas com a ajuda uns dos outros chegávamos lá acima. O dislumbre! O objectivo não era apenas chegar lá acima... era sentir a serra, lutar por ela, esforçar-nos por tê-la. Era assim que eu me sentia assim que galgava as muralhas... Merecia tudo o que estava a ver e a sentir, sentia que a serra era minha.
A volta para casa? Depois da passagem pela Piriquita, entrávamos no combóio. Todos nos olhavam como se fossemos mendigos... Calças de ganga azuis, castanhas de tão sujas e ainda por cima rotas... meio caminho andado para o caixote de lixo. E muito, mas muito, desgrenhados... Mas eu sentia-me muito limpa, por dentro. Sentia-me super saudável e pronta para outra...
A imagem do dia seguinte? Eu e a Joana a subir a escadaria do Liceu a 1km/hora... Ai! Nem as pernas conseguíamos dobrar...
Saudades...


Pic: uma das velhas fotos que resistiram aos pioneses do painel de cortiça lá de casa (cortei caras por excesso de zelo...)

28.1.07

Eu e a Música

Dei por mim num outro dia em pleno jantar a falar sobre a forma como a música entrou na minha vida. Vou ser brutalmente mal educada, porque sei que este post vai ser extenso, da mesma forma que a conversa que tive. Fases musicais? Muitas! Gostos musicais? Imensos!
Na minha infância ouvia o Brincando aos Clássicos da Ana Faria e as músicas que o meu pai ouvia... Beatles, The Who eram alguns... Música portuguesa pouco entrava lá em casa, apenas as músicas de festivais da canção, na altura vivido com intensidade por todo o país. Lembro-me de no infantário, teria eu uns três anos, cantarolar o Playback do Carlos Paião ao mesmo tempo que com os meus coleguinhas conduzíamos um carro imaginário. Já no colégio, por volta dos quatro, cinco anos, para além da música das aulas de Ballett (tocada por uma senhora já velhinha ao piano), cantarolava música de genéricos de desenhos animados. Ainda o vinil era rei e senhor, recebi o meu primeiro LP com uma colectânea Super 84. Culture Club, Yahoo, Zoom, Balão Azul eram algumas. Ao terminar a quarta classe recebi um gravador de cassettes e fiz a minha primeira gravação directamente da rádio. Três cassettes cheias de Live Aid! Conheci os U2...
As primeiras cassettes originais? Dire Straits e Mickael Jackson. Mas a grande viragem, o grande prazer pela música surgiu quando me apaixonei pela primeira vez. Paixão platónica sem sucesso... Aos doze anos ouvia Kenny Rodgers, Linda Ronstadt, Glenn Medeiros, Rod Stewart, Beatles, Meat Loaf... Tudo o que fosse calmo e desse para dançar agarradinha... Aos treze? Fase Rádio Cidade na altura em que era pirata... O que eu gostava dessa estação... Chorei quando a encerraram... Ouvia Rick Astley, Jason Donovan, Kylie Minogue, Madonna, Climie Fisher, Prefab Sprout, Samantha Fox, Bros, enfim... tantos... alguns que agora nem sei como gostei, mas que ainda me divertem quando oiço. A banda sonora do Dirty Dancing e do Top Gun acompanham-me desde aqui... Aos catorze finalmente música portuguesa! Rui Veloso marcou-me por ser o primeiro concerto que vi e pela Paixão (segundo Nicolau da Viola). Depois? Um hiato... Pump up the jam e a música electrónica, Dr. Alban e Vanilla Ice, Mata ratos apareceram... A música calma ficou de lado e deixei-me andar... Apareceram muitas músicas, algumas que me marcam, mas não o suficiente ao ponto de me recordar e colocá-las aqui. Grande mudança aos dezassete! Súbita paixão fulminante por Freddie Mercury. Cenário? Sintra, num palacete de um colega e posterior amigo colorido, numa festa de assalto de carnaval. Alguém que se senta ao piano e toca o "Bohemian Rapsody" a solo e instrumental... o mesmo alguém que agarra no baixo e toca, também a solo e instrumental, "Another one bytes the dust" e que termina não a solo e não em instrumental, com o "Wonderful tonight" do Eric Clapton. Apaixonei-me pelo pianista e baixista e pelos Queen. A paixão pelo pianista e baixista foi-se da mesma forma que apareceu. A paixão por Queen ainda hoje perdura e existirá enquanto viver. Foi em pleno metro com headphones que encontrei nova paixão musical, tão grande como a dos Queen, U2. Com dezanove anos, e após um atestado de grande ignorância musical moderna, conheci Aerosmith. Metallica, Guns 'n Roses, James e muitos outros já andavam a pairar a minha cena musical desde os dezassette, dezoito anos. E foi apartir daqui que comecei a criar o meu próprio gosto musical... Gosto de música pela música, gosto de música pelas letras, amo a música quando a música e as letras se conjugam harmoniozamente. E gosto de tudo. Há músicas para tudo... Até as chamadas "pimba" me divertem! (sei Mónica Cintra de trás para a frente e de frente para trás). Grupos de eleição? Muitos e de várias nacionalidades. Músicas favoritas? Pela qualidade e/ou pelas memórias:
One - U2
Bohemian Rapsody - Queen
Paixão - Rui Veloso
Don't wait that long - James
Blue Valentine - Tom Waits
Don't wanna miss a thing - Aerosmith
Come what may - BSO Moulin Rouge

20.1.07

Do ridiculo para o saudosismo...

"Não posso!" - disse eu... "Esta tenho de ouvir!"
Ambiente? Ok... No meu sofá, no meu salão, na minha casa... Encostada à almofada num dos poucos momentos de paz do dia de hoje, a olhar para a televisão a nada ver e a ouvir a VH1... a música anterior até estava "comestível"... Guns 'n Roses com o November Rain... até que, assim sem mais nem menos, no meio do nada... Glenn Medeiros! com o seu hit dos anos 80 "Nothing gonna change my love for you"! Hoje rio-me dos video-clips dessa altura... muito rudimentares... as roupas... ai! as roupas... os cabelos... ai! os cabelos... os efeitos especiais ridiculos... na altura de certo deveras muito complicados, mas sempre inovadores... ai!... a cena? O Glenn (com a sua cabeleira farta) e a sua namorada a passearem numa praia... de repente fica frio e ele (o Glenn) cede a sua camisola ao eterno amor da sua vida...
Pois é... ri-me, mas a certa altura já não estava a olhar para o ridiculo video-clip, já não estava a ouvir a música que hoje acho pirosa... fiz rewind... lembrei-me de uma cassette gasta, muito gasta, tocada em tantas festinhas de jogos de vassoura... lembrei-me de um "eu não danço com ela!", lembrei-me de outro alguém que dançou comigo, lembrei-me que o alguém que disse aos meus 11 anos "eu não danço com ela", foi o mesmo alguém que se tornou no meu primeiro namorado aos 14... e que hoje é, provavelmente, um dos meus melhores amigos. Lembrei-me da minha Mimi, também ela gostava desta música tal como eu... A cassette? Tinha muitas músicas dançáveis... Jackpot 86? Seria? Era Jackpot qualquer coisa... mas as únicas músicas que me lembro são esta e aquela "Quando a gente gosta, vale a pena qualquer coisa, vale tudo, tudo, tudo para ficaaaaaar..."

Doces Lembranças...

22.11.06

Surpresas

Descobri cedo que a surpresa e a curiosidade não andam de mãos dadas.
Sou curiosa por natureza, gosto de surpresas e raramente me surpreendem...
Tenho fome de surpresas... Mas a curiosidade largamente desenvolvida e experimentada tornou-me perspicaz... Não tenho orgulho nisso... não o procurei por querer... Aconteceu! Parece que tenho sempre as antenas ligadas... vejo, oiço, sinto e apercebo-me de algo estranho que se está a passar... Queria pura e simplesmente desligar mas não consigo... Absorvo muito do que me rodeia e eu própria sou absorvida por esse muito... dependo desse espaço...

Lembro-me de em pequena procurar o esconderijo dos presentes de Natal e de descobri-lo. Depois, quando ninguém me estava a controlar, voltei ao esconderijo e abri cuidadosamente os presentes sem estragar os embrulhos... fiquei eufórica! Fiquei eufórica sozinha... Depois algo em mim bateu... Voltei a embrulhar os presentes e a colocá-los no seu lugar. No dia de Natal já sabia tudo o que ía receber... Antes de os abrir, pensei nos meus pais e na tristeza que sentiriam por não verem os meus olhos a brilhar com tamanha surpresa. Pensei e tentei recordar-me exactamente da reacção que tive quando os abri pela primeira vez... Tinha de me mostrar surpreendida para os deixar felizes... Acho que consegui... Nos anos a seguir sempre me esforcei e controlei a minha enorme vontade de descoberta e surpresa... Consegui controlar-me razoavelmente...

Agora é a minha vez de fazer surpresas e sinto-me feliz por as fazer...
Adoro ver o ar de felicidade nos rostos de quem eu gosto...
Adoro criar surpresas, dedicar-me horas a fio, dia após dia a algo feito por mim, para alguém que me é especial...

19.11.06

Viagens...


Como as viagens mudam...
Antes ía sempre sentada no banco de trás do carro...
Entrava no carro e ao sentir o cheiro enjoativo dos estofos em pele desejava que a viagem fosse curta...
Encostava a cabeça ao vidro, passávamos a ponte e começava a ver os barcos que passeavam no rio... sabia que ainda faltava mais de uma hora de caminho...
Olhava para as nuvens e via tudo... animais, flores, carros, até pessoas... lembro-me de um dia ter reconhecido o perfil do meu tio Luís nas nuvens...
Assim que deixava de reconhecer figuras nas nuvens... começava a cantar...
Cantava tudo e mesmo as letras das músicas que não sabia, inventava...
Cansada de cantar... começava a olhar para as matrículas dos carros que passavam e pelas letras dava nomes aos seus passageiros...
A certa altura começava a ficar impaciente...
Ainda falta muito?
- Estamos quase a chegar a Águas de Moura, daqui a pouco vês a Cegonha – dizia a minha mãe.
E assim a ansiedade diminuia... Próximo intertenimento: A Cegonha...
E ao fim de algum tempo ali estava ela, no campanário de uma igreja do lado esquerdo da estrada...
Depois de Águas de Moura? Ainda Pegões, Vendas-Novas, Montemor...
Viagem interminável... De passagem nenhuma das terras me cativava...
Interessavam-me mais os campos lisos, todos amarelos, com uma árvore aqui e outra acolá... Uma anta! Olha mãe! Uma anta!... E por minutos a viagem parecia rápida... As vacas a pastarem também me distraíam... ficava feliz ao passar pela barragem e vê-la cheia... Imaginava-me a tomar grandes banhocas...
Passávamos por Santa Sofia, e de todas as vezes a minha mãe dizia – É ali que o Engenheiro Chaves está enterrado... – (um aparte... ainda hoje quando por lá passamos a minha mãe olha e sorri... porque pensa em dizer a frase de sempre, mas não a diz só para não ouvir “Sim mãe, já sabemos...”).
E por fim chegávamos! Saía do carro toda moída e ía brincar para casa dos meus avós. Estranho é pensar que a viagem de ida era sempre assim, mas da viagem de volta nem me lembro... Sempre tão rápida...
Hoje em menos de uma hora chego ao destino...
hoje sou eu que conduzo...
hoje pouco vejo...
Hoje pouco vivo a alegria e a ansiedade de uma longa viagem...


Imagem: tilde by
CubicSummer

29.10.06

Músicas que marcam

A música tem em mim esse efeito... tem em mim e em toda a gente...Nem o ser mais insensível poderá não sorrir ou chorar quando uma música lhe desperta um momento.
Hoje oiço músicas que gostei e, muito antes de me perguntar como foi possível o meu ouvido vibrar, lembro-me dos momentos, das situações e das pessoas que marcaram a minha vida...
Fiz uma lista... a qual tive de reduzir drasticamente... Já ia em setenta e três... Tirei muitas músicas que ainda hoje adoro e que oiço de trás para a frente e de frente para trás... Ficaram apenas algumas das músicas que me lembro e que me provocam sempre a mesma reacção, a mesma sensação ou as mesmas recordações...

E depois do Adeus – Paulo de Carvalho
Pela música que ainda hoje me faz vibrar... por tudo, e por ter sido lançada no ano em que nasci

Era uma vez a vida - Paulo de Carvalho
Pela música... linda e pela série de televisão que devorava

J'aime la vie – Sandra Kim
Música de um festival da Eurovisão da Canção... Na altura Portugal em peso parava... Eu e as minhas amigas de infância chegámos a fazer uma coreografia da música a qual apresentámos à família... Ai! Que desengonçadas...

Paixão – Rui Veloso
Primeiro concerto da minha vida no Pavilhão Carlos Lopes... Uma música especial...

Não há estrelas no Céu – Rui Veloso
Londres! Estranho? As espanholas do colégio estavam sempre a cantar... Eu e a minha amiga portuguesa só nos lembráva-mos desta... Cantámos até enjoar...

The time of my life – BSO Dirty Dancing
Esta música é das mais importantes… Pelas cassettes VHS gastas quase até se partirem...
Pela doideira de todas as raparigas da minha geração...


The Love Boat – BSO The Love Boat
Ainda hoje quando a oiço dá-me vontade de rodar a cadeira e abrindo os braços cantar “The Loooove Boat”... Dá-me vontade não... Faço mesmo...

Na minha cama com ela – Mónica Cintra
Pelo divertimento de três miúdas... Apenas por isso... A música mais tocada no carro na célebre fase de “Música de Qualidade”...

Gaivota
As primeiras palavras que cantei na vida... “Uma gaivota voava voava...”

Todas as músicas da Ana Faria
Brincando aos clássicos e queijinhos frescos... Ainda hoje gosto...

I don't wanna miss a thing – Aerosmith
O dia do meu casamento

Malibu – Hole e Road Rage - Catatonia
Fantásticas férias em Milfontes... Fantástica praia, Fantásticas noites, Fantástica manhã de eclipse...

Don't know much - Linda Ronstadt
Uhm… As festas dos slows e do jogo da vassoura…

Hey Manhatan – Prefab Sprout
Quando a rádio Cidade ainda era pirata... também a única altura em que a sintonizei...

A música do Flip - Abelha Maia
Pois é... Sempre gostei mais desta do que da principal...

Take my breath away – Berlin
Top Gun... Num cantinho do colégio a ouvir a música no walkman

Elevation - U2
Só me lembro e me irrito por todos os concertos que perdi...

One – U2
A música de todos os tempos

It's my life – John Bonjovi
Punho no ar, na Minha discoteca favorita com a minha amiga de sempre nestas investidas

Bohemian rapsody – Queen e Wonderful tonight – Eric Clapton
Festa de Carnaval (assalto de carnaval) em Sintra

Wake me up before you go-go – Wham
Ai! Festa de Natal do Colégio... Onde tínhamos de dançar vestidos de ursos e as minha calças caíram!!! Continuei a dançar... No fim todos pensaram ser propositado...

Um dia uma criança me parou - ?
A música que cantei para os meus avós quando tinha oito anos, sozinha para uma igreja cheia...

Velvetten - Transvision vamp
Que gosto muito mais do que as bebedeiras que aturei...

That Thing You Do! - The wonders
Um dos CDs mais religiosamente guardados…

Lua - Pedro Abrunhosa
Pelas razões óbvias

Little Red Corvette – Prince
Gazeta a quatro já na faculdade

We are the champions – Queen
Por todos os jogos da seleccção nacional

Smile – Cantada por Nat King Cole
Lembra-me tanta coisa… mas principalmente lembra-me o meu pai

If you’re not the one – Daniel Bedingfield
Pelo lado princesa que há em mim...

So Far Away – Dire Straits
A minha primeira cassette

Hold on my heart – Genesis
Um dos concertos que mais gostei…

Don't Wait That Long – James
Uma viagem imaginária ao Porto

Bairro do Amor – Jorge Palma
Cantada pelo próprio e pelos amigos de sempre das noitadas do Bairro Alto, no Nova...

Self Esteem – Offspring
Lembro-me sempre de uma viagem para o Absoluto, num carro a cair de velho e com a música aos altos berros...

Ouvi Dizer - Ornatos Violeta
Passagem de ano em São Rafael... Mudança de milénio... Chorei ao falar ao telefone com os meus pais minutos depois da passagem... Ufa! O Y2K passou-se...

By Your Side – Sade
Fim-de-Semana em Idanha-a-Nova... enregelei na Serra... amei mais uma vez Monsanto...

Rayando el Sol – Mana
Lua-de-mel

Blue Valentines – Tom Waits
Nem sei o que dizer… Daquelas memórias que não gosto de recordar... mas uma música que adoro...

Ice Ice Baby - Vanilla Ice
Ah pois… esta e outras bem piores tocadas em papeleiras de lata...

Que nome lhe vamos dar – Sara Tavares
A minha filha... a música que a embalava quando ainda não andava... Luzinha!


Imagem: There is Music on Saturn by
hepikied

28.10.06

Freiria


Consigo percorrer aquela casa e lembrar-me dela ao pormenor...

Chego ao portão e bato à porta...
Alguém aparece à janela para ver quem é...
A porta abre-se e entro num páteo de granito onde uma laranjeira de laranjas enormes e azedas enche grande parte do espaço. Disseram-me que essa árvore foi plantada pelo meu avô, uma laranjeira enxertada de limoeiro, para que todas as manhãs numa determinada altura do ano as comesse... diziam que fazia bem comer laranjas azedas. Chego ao outro lado do páteo e tenho três opções... Virar à direita para subir as escadas e entrar na casa principal, dirigir-me ao canto do páteo e entrar num corredor de arcadas que me leva a um segundo páteo, ou ir em frente e abrir a porta de um anexo que é provavelmente a parte mais antiga da casa.
Nesse anexo poucas vezes entrei... Lembro-me de entrar nele quando já não existiam mobílias, depois de o meu avô falecer. Tinha o tecto todo pintado sob madeira... coisa antiga dizem... mas todo o anexo era em si muito escuro, muito pesado, muito triste... Saio do anexo que não me traz quaisquer recordações... Volto ao páteo, onde com nove anos jogava futebol com o meu primo de quatro – a porta do anexo era uma baliza, o portão da casa era outra... a minha baliza era sempre a porta do anexo (a mais pequena) – e lembro-me de os meus avós nos olharem da janela do seu quarto que se encontrava na casa principal por cima do anexo. Começo a subir as escadas de granito que me levam para a entrada da casa. “Se é Deus que trazes contigo nesta casa tens abrigo” diz um painel que se encontra no início da escadaria com degraus estreitos e altos que estranhamente nunca me fizeram cair...
Chego à casa, entro na sala de visitas cujo tecto é abobadado e lembro-me do piano, da mesa de centro, dos mapples... lembro-me das pessoas que visitavam os meus avós... se não fossem família raramente ultrapassavam essa divisão... A casa em si, sempre foi muito confusa... De uma divisão passava-se para outra, atrás de uma porta havia uma escada em caracol que me levava para os quartos do segundo piso e ao sotão...
A sala de estar, e não das visitas, era pequena e tinha poucas finalidades... lá víamos televisão, jogávamos às cartas e os primos muito mais velhos que eu e tios bebiam o seu whisky e fumavam um cigarro... Já no final de vida da minha avó, e quando o meu avô já não estava presente, nos fins-de-semana em que eu era a única criança da casa, jogava crapot com ela, tentava-lhe fazer fisioterapia à mão afectada pela trombose, acompanhava-a na eucaristia dominical vista na TV e abria a porta ao padre que lhe ía dar a comunhão.
A divisão onde todos convivíamos era a sala de jantar. Chegávamos a ser vinte e seis à mesa! Família grande... Local priveligiado para Ceia de Natal, encabeçado por uma lareira que na noite de consoada se inundava de presentes. Todas as crianças cantavam, lia-se uma ou duas passagens do Novo Testamento e depois... a euforia! Foi com cinco anos que descobri que o Pai Natal era a minha prima mais velha... Não fiquei triste, porque muito embora os colegas de escola dissessem que quem dava os presentes era o Pai Natal, sempre pensei que era o menino jesus que os oferecia...
A sala de jantar dava para o quarto grande dos meus avós, para o quarto dos residentes (qualquer familiar que habitasse permanentemente a casa por estar na universidade da terra), para a escadaria exterior da casa e para um hall.
Casa confusa...
O hall tinha um relógio alto, um telefone, e dava para a Sala de Estar, Sala das visitas, para a porta de acesso às escadas em caracol que me levava ao andar superior e para a Cozinha e copa de inverno. Na cozinha descia outra escadaria, também ela em granito com degraus estreitos e altos, que me levava à cozinha de verão – pouco ou raramente utilizada na minha época –, à sala de jantar de verão e à porta de acesso do segundo páteo... Que medo tinha eu dessas escadas... Aliás, não era das escadas, era de tudo... Descia-as a correr, subia-as de três em três degraus e sempre a olhar para o chão... Não sei se era das sombras – no alto da parede do fundo das escadas existia uma janela redonda em vitral com forma de uma rosácea -, se era das estórias que me contavam, as quais nem me lembro, sobre a sala de estar de verão... sempre muito escura, não sei... Mas sempre tive medo...
Fui uma vez aos páteos à noite e nunca mais repeti a façanha.
O páteo da entrada era o que menos receava, o corredor desse páteo para o segundo – para onde dava a cozinha de verão – fazia-me confusão, principalmente por causa das arcadas, das imensas portas de divisões pouco utilizadas – casa da costura, dispensa, escritório de verão, casa de passar a ferro, sala de estudo e casa de banho de apoio – que me faziam imaginar algum ser qualquer a saltar lá de dentro. Desse segundo páteo para o terceiro páteo... nem pensar... Era o páteo do poço, das muitas àrvores, da casa do carvão e de mais uma casa que nunca percebi a finalidade... O páteo do poço... Se as estórias que me contaram eram mentira, enganaram todas as crianças desta família muito bem. Nunca nenhum de nós se chegou perto do poço por pensarmos que poderia aparecer um fantasma de um frade a dizer “Vai de recto” e a fazer o sinal da cruz.
Enfim, páteos dos horrores à noite, páteos das melhores brincadeiras de sempre de dia. Percorro a casa em memórias e qualquer coisa me trás boas recordações... Até as nódoas negras, as discussões, a neura de não ter ninguém para brincar nos fins-de-semana em que os meus primos não iam, até os medos me trazem saudade...

Normalmente diz-se que não se devem visitar sitios dos quais guardamos memórias felizes, para que as nossas lembranças se mantenham intocáveis.
Visitei a casa dos meus avós há pouco tempo, pedi ao novo dono para a fotografar, enviei as fotos à minha família, expliquei-lhes as alterações e melhorias feitas pelo novo dono, mostrei-me feliz por ver que a grande maioria das alterações era bem conseguida, elogiei o facto de a casa estar tão bem cuidada, comentei uma alteração que ao principio me chocou e depois me cativou... a mudança do chão do segundo páteo de granito para calçada portuguesa...

Só posso dizer que voltei feliz e com uma doce saudade dos doces momentos que lá passei.

Imagem: skywalker

23.10.06

Lembro-me... II

Lembrar é importante... Sorrir com essas lembranças, melhor...

Lembrar momentos passados com aqueles amigos que nos acompanham desde a nossa infância é de chorar a rir pela graça, pela vergonha - O quê, fizemos isto? -, pelas brigas... por tudo. Mais engraçado é ver que todos nos lembramos de momentos diferentes, cada um à sua maneira valoriza momentos diferentes, e por isso, juntos conseguimos compor a nossa vida, o nosso passado comum em várias conversas ao longo do tempo. Muitas amizades acabam por se aguentar assim... pelo passado comum... Não pelo que somos hoje, não pela nossa personalidade, mas apenas e só por partilharmos os mesmos momentos. Em cada encontro as mesmas conversas, os mesmos momentos, a mesma risota, talvez mais uma ou outra estória entretanto esquecida e por fim o mesmo Até já.
Não tenho muitos amigos de infância... Tenho amigos de hoje e de sempre... enchem a minha mão e enchem o meu coração com a sua capacidade inabalável de estarem sempre presentes, com o apoio inquestionável em qualquer situação e com o abraço e carinho quando impotente...

E os momentos? Aumentam a cada dia que passa... porque aos meus Amigos levo-os comigo para todo o lado... Trago-os Aqui.
Assim, e desculpem se falho momentos, mas sei que se importantes o puzzle se há-de compor com a vossa ajuda, aqui ficam alguns:

Lembro-me de andar de bicicleta com "my friend from the bosom" em plena rua, e "alguém" passar por cima de uma lomba e estatelar-se em cima de um carro ;)...

Lembro-me de trepar às balizas do campo de futebol da escola e molhar quem jogava com as bisnagas... claro que bem acompanhada...

Lembro-me de brincar no confessionário da igreja da escola...

Lembro-me do clube dos Patetas (seria mais o clube das Patetas, enfim...)... Afinal qual era o objectivo? Sócios? Muitos... 2
Lembro-me de célebre simulação de acidente na praia, que teve direito a ligaduras, muito molho de tomate e pensos... No fim acabámos todos na água...

Lembro-me daqueles bilhetes da escola. Acho que o objectivo primordial dos professores (stôres!!!) era apanhá-los... Numa das vezes, na altura com doze anos, uma das minhas amigas escreveu-me "Apareceu-me a Coisa... Tenho de ir ao WC"... O bilhetinho foi apanhado, fomos as duas a prova Oral, tivémos ambas insuficiente e no fim da aula quando a professora leu o bilhete (cusca!) ficou de todas as cores...

Lembro-me de andar a fazer Ski pela Rua Augusta com mais três amigas...

Lembro-me das célebres festas de Slows... O jogo da vassoura... dos cortinados... das luzes fechadas... Agora que penso, e tirando um caso específico, quase todos os rapazes namoraram várias raparigas do grupo, mas o inverso não se aplica... ou sou eu que já estou esquecida?

Lembro-me... aliás como me poderia eu esquecer, ainda hoje estou marcada... Do jogo do quarto escuro a correr a mil e às escuras, a saltar camas e a cair com o rabo em cima da mesa de cabeceira nova... Vá lá a mâe não se zangou... ficou a cicatriz até hoje e a proibição do jogo lá em casa também até estes dias (vou perguntar à minha mãe se posso voltar a brincar! :P... )

Lembro-me das investidas ao retiro da escola... Sempre escondidas, para não sermos apanhadas, com o coração a mil, com as pernas bambas sempre que algo se aproximava e quando lá chegávamos eramos recebidas de braços abertos... quase que parecia um prémio pela prova superada!

Lembro-me da Nucrema (agora Nutella)... Um pote para cada uma, comido integralmente com o dedo durante o intervalo para votações do "Agora Escolha"... que baleias... Só me lembro de dizer "The plane, the plane!"

E vou continuar a lembrar-me todos os dias... e todos os dias vou estar presente para daqui a uns anos mais me lembrar!


Imagem: friends by
Mejjad

22.10.06

Lembro-me...

A minha experiência...

Queria escrever sobre a minha experiência de vida e não consigo...

Queria escrever sobre as coisas que já fiz, as barreiras que ultrapassei, as novidades que deixaram de ser novidades, as asneiras que cometi e só penso no que quero fazer daqui em diante... Aquelas coisas que não quero morrer sem antes experimentar... fobia de viver... Estou com uma fobia de viver!

E quando me ponho a pensar na minha experiência, nas recordações do que fiz, não penso em objectivos cumpridos, crescimento pessoal ou qualquer situação extraordinária... Lembro-me apenas de momentos...

Lembro-me de descer a rua de mão-dada com o meu pai a tentar apanhar as bagas das árvores... Ano após ano... Até que um dia já a minha cabeça tocava nelas...

Lembro-me de estar na casa de uns amigos dos meus pais a brincar no jardim, num pneu improvisado de baloiço e de repente cair a noite e eu não conseguir encontrar a porta da casa...

Lembro-me de estar a comer um yogurte de sabor a banana junto ao ringue de patinagem do zoo...

Lembro-me de os meus primos me darem rebuçados às escondidas...

Lembro-me de me perder numa praia deserta... de ter por fim encontrado a base... e a base estar vazia... levei um raspanete!

Lembro-me de um presente de natal... De um embrulho enorme que pensei ser para mim e de os meus pais dizerem que era para a minha avó... fiquei feliz por a minha avó ter um presente tão grande... fiquei mais feliz quando soube que era para mim e que era aquele boneco pelo qual tanto tinha pedido e tanto tempo tinha esperado...

Lembro-me de ter cantado para os meus avós, com uma plateia imensa... lembro-me da vergonha que tive enquanto cantei... lembro-me da alegria e orgulho que senti quando terminei...

Lembro-me de agarrar na mão da minha avó e beliscar-lhe levemente a pele para vê-la muito lentamente a passar de ruga a lisa...

Lembro-me de cair vezes sem conta das escadas em caracol de casa dos meus avós...

Lembro-me de ir para o sotão da escola nos dias em que chovia...

Lembro-me de por malaguetas nos olhos com o meu primo... um dia sem ver...

Lembro-me da vontade de voltar para a escola em Outubro... reencontrar os colegas... falar das férias...

Lembro-me do candeeiro da sala de jantar cheio de balões em todos os meus aniversários...

Lembro-me da minha primeira bicicleta... usava-a como se fosse uma BMX... era uma pasteleira... a certa altura já era eu que remediava os furos nos pneus...

Lembro-me do meu primeiro beijo como se fosse ontem... e como tudo mudou desde aí... Mudaram-se as conversas, os sonhos, os desejos...

Lembro-me do sentimento da primeira paixão... A não existência de jogo... a pureza de todos os sentimentos...

Lembro-me da dor da primeira ruptura... que consegui ultrapassar...

Lembro-me do dia em que decidi passar a fazer de cada dia uma autêntica festa...


E escrevo e vejo que esta lista é interminável...
(a continuar... ad eternum)