10.9.08

É aqui!

A descer uma estreita estrada, curva após curva e no meio do nada, avisto umas casas pequenas ao fundo de um vale e do meu lado esquerdo pelo meio da vegetação começa a surgir o primeiro jazigo antigo que vi em toda esta viagem de regresso às terras dos meus antepassados. Um cemitério onde algo em mim me fez parar de imediato o carro, mesmo antes de visitar Navalho. Não sei em quanto tempo me pus à sua frente, mas para mim foi num ápice. Em segundos estava de frente para o jazigo e olhei para a única campa antiga que estava ao seu lado. Sorri de felicidade. A minha mãe ainda a entrar no cemitério perguntou-me se tinha encontrado alguma coisa. Respondi-lhe provavelmente com o sorriso mais feliz do mundo “Está aqui!”. Conhecemos a Tia Maria com quem logo fizemos amizade. Não era natural do Navalho. Contou-nos que depois de vir de Angola foi viver com o marido para ali e mesmo depois da sua morte, no ano passado, por lá continuava. Senhora doce, sozinha e pronta a ajudar qualquer um que lá passe. Disse-nos que nos ía apresentar à senhora mais velha da aldeia, de 94 anos, que nos poderia dar algumas informações para encontrar as casas de família dos meus avós. A minha mãe e tia levaram-na de carro até à aldeia e eu fui sozinha a pé.


Não sei explicar todo esse caminho até chegar à entrada da aldeia. Desci sorrindo, imaginei os meus avós ainda muito jovens, sem saberem o que o futuro lhes reservava a encontrarem-se naquele caminho e a percorrerem-no. Não vi as suas faces, as suas vestes, mas achei-os elegantes e sobretudo sei, tenho a certeza, que sorriam. Pela primeira vez e depois de ter visitado tantas aldeias, senti-me a chegar a casa, absorvida por tudo o que me rodeava.

Nem a visita a Murça, local onde o meu pai nasceu por acaso e onde por lá esteve apenas um mês de toda a sua vida, me fez sentir assim. Em Navalho nasceu a grande maioria dos meus avós, bizavós, trizavós, tetravós e sabe lá quem mais…

Sabia pelos assentos de nascimento que o meu avô tinha nascido na Rua da Igreja e a minha avó naquilo que interpretei como Rua da Farinha. A Rua da Igreja era a rua principal e de Rua da Farinha não havia qualquer sinal. Não poderia saber quais seriam as casas. A Tia Maria, senhora de 78 anos, levou-nos a percorrer toda a aldeia que ao caminhar era bem mais extensa que aquilo que se previa do cimo do vale. Mostrou-nos a aldeia, contou-nos algumas histórias e no final da rua desemboquei numa linda e arrebatadora vista do vale.



De volta para trás a caminho de casa da Dona Carlota, a senhora mais velha da aldeia, passámos por uma rua chamada da Terrincha e prendi-me ali. Só poderia ser ali. Mas qual casa? Mais tarde em conversa com a Dona Carlota perguntei-lhe pelos apelidos dos meus avós e ela explicou à Dona Maria quais eram as casas, que há muito não eram da família, mas que se lembrava de ouvir falar que lá viveram durante muitos anos. Fomos vê-las… [não consigo deixar de sorrir enquanto escrevo isto] A casa da minha avó, como a Dona Carlota dizia era na Rua da Terrincha, no cruzamento com a Rua da Igreja, e a casa do meu avô, na Rua da Igreja mesmo em frente do cruzamento com a Rua da Terrincha, virada para a casa da minha avó. Ambas estão abandonadas, uma delas (a do meu avô) em obras de restauro, mas são as casas dos meus avós.

Casa da minha avó

Casa do meu avô

Casa da minha avó virada para o portão da casa do meu avô



A Dona Maria convidou-nos para sua casa, para comer do seu presunto e queijo de ovelha. Sozinha, senti-a feliz, com os olhos brilhantes de lágrimas, por estar acompanhada, por ter com quem falar. Contou-nos da sua vida e fez tudo, no meio da sua casa pobre, para nos agradar. Pedi-lhe a morada e prometi-lhe que lhe escrevia e lhe enviava fotografias da nossa visita. Metemo-nos à estrada não sem antes nos despedirmos imensas vezes da Dona Maria. Ainda não tinha saído dali e já estava com saudades. Já a subir o vale, depois de passarmos pelo cemitério quis parar para fotografar a imagem do caminho que me havia preenchido. Voltei debaixo de um sol intenso que queimava, toquei na terra e agarrei na pedra mais brilhante que encontrei.
Sem o dizer sei que pensei que um dia ainda ali voltarei. Até lá, guardo a pequena pedrinha em troca do pedaço de coração que lá deixei ficar.


Curiosidades: Chegada ao hotel agarrei no portátil e fui ler de novo o assento de nascimento da minha avó. É Rua da Terrincha, sem tirar nem por. Eu e a minha mãe agarrámos felizes no braço uma da outra como se acabássemos de tirar a última teima daquilo que já havíamos sentido.
Nota: Nunca conheci os meus avós paternos. Se hoje fossem vivos teriam 133 e 131 anos. Esta caminhada foi por mim, para o meu lindo pai e para eles.

8.9.08

Venham...

Existem paraísos na terra, onde gentes hospitaleiras me presenteiam com simpatia, humildade e simplicidade. Sítios que parece terem parado no tempo e que pedem para que os vejam, como se a dizer:
Venham! - tragam as vossas crianças, mostrem-lhes o bom de mim. Ponho-me bonita, para que o mais puro me reconheça, para que o mais puro a mim volte e me faça sentir ainda mais verdejante e também eu criança.
Assinado: Uma montanha


Entre a aldeia dos Vales e a aldeia de Franco (Valpaços)



Pic: Skywalker

7.9.08

Inesquecível 2

E outros onde a ternura aquece

Romeu
Restaurante "Maria Rita"


Pic: Skywalker

Inesquecível

Há lugares inesquecíveis e este é um deles



Castelo de Bragança à noite


Pic: Skywalker

6.9.08

UM DIA

Um dia vou seguir um impulso forte e levar gente comigo
Um dia vou percorrer um outro mas meu caminho
Um dia vou deixar ser puxada pelo que me puxa
Um dia vou deixar de contar os dias porque o dia chegou
Um dia vou de encontro às minhas raízes

HOJE É O DIA !

5.9.08

Frases que ficam

tens dois "pelos" - eu, sobre a palavra repetida "pelo" num texto;
a aceitação é necessária naquilo que não controlamos - LRS depois de um almoço;
também foste ao meu algarve? - pequena lua a meter conversa num jantar de 'crescidos';
estava por aí... - Russo
o Mamma Mia estreia hoje - tanta gente
o Natal este ano é em Évora, na quinta - Tias (que bom...)
Tens mesmo a quem sair - Maria

Sabes, tenho de te dizer isto, ainda hoje o disse às tuas tias. Tenho muita sorte, e vou-te dizer porquê, por ordem de chegada. Tive os melhores pais, tão bons comigo. Tenho os melhores irmãos que poderia ter na vida. Tenho muitos, bons e sempre presentes amigos. Tive o melhor dos maridos, que me dedicou a sua vida e foi o meu melhor amigo. Tenho uma filha amorosa por quem tenho uma enorme admiração. E tenho... uma neta linda, linda, linda. - Mãe

E eu mãe, depois das tuas palavras digo-te, que bom é estares aqui comigo. Que bom é ouvir-te a sentir isso. O pai, acredito, está neste momento a sorrir. E eu, sorrindo, penso e relembro-me da sorte que tenho, por passar 33 anos da minha vida rodeada pelo amor que dizes.

3.9.08

momentos

Tudo tem o seu momento, o seu auge, o seu sentido num momento único no meio de tantos momentos na vida. Ainda há pouco, questão de umas horas, fazia todo o sentido falar sobre o Nesquik em pó, Ucal de chocolate, Nestum com mel e fabulosas e abusadas torradas de pão alentejano a transbordar de manteiga, num dia de inverno, e todas as recordações e aconchego que isso traz. Mas o que aqui escrevo ainda com deleite não tem o mesmo impacto, detalhe e sentido das palavras, linhas, segundos sentidos e histórias que ainda há poucas horas senti tanta vontade e necessidade de escrever. A minha amiga almofada que anda sempre às avessas com a minha impulsividade, também ela minha amiga, quando consegue apanhar os meus desalinhos é a minha melhor aliada na resolução dos meus nocturnos castigos. Descobri que a almofada é o tempo, e o tempo que me oferece para me encontrar em mim. Tanto me ajuda a minimizar as origens da minha impulsividade, reduzindo o fogo, a paixão, a direcção que sinto, como me tira o brilho e o fulgor dos momentos impulsivos que me preenchem a vida. Gosto dela, mas apenas para me organizar e quem sabe, partilhar aqueles sonhos que só ela sabe. É conselheira, é amiga confidente e silenciosa dos meus desejos e vontades mais escondidas. É por isso que não gosto de deixar nada por dizer e resolver durante o dia. Os momentos, sempre únicos, são para ser vividos acordados, conscientes, com impulsividade e amor em quantidades mega industriais, para de noite, limpa, adormecer em sorrisos sem necessitar de organização ou conselhos, prolongando a intensidade dos doces e impulsivos momentos do dia, partilhando-os secretamente com uma amiga.

1.9.08

Suspiro...

Ouvi o teu suspiro, pelo canto do meu ouvido
relembraste-me num repente que estás vivo
A mãe perguntou-me se estavas aqui comigo
respondi-lhe que não, que o suspiro que tinha ouvido
tinha sido como tantos outros que lhe tinha ouvido
sempre que a conversa telefónica se prolongava
respondeu logo depois - Estará aqui comigo?
racionalizou e disse - foi provavelmente a televisão...

suspiro teu ou não, senti que a mãe não estava sózinha
senti como tantas vezes a tua presença paciente
interrompida tantas vezes com suspiros impacientes

lembrei-me do teu assobio inigualável de chamamento
que tal cãozinho ouve o dono, me fazia olhar em volta
procurando em todas as gentes os teus traços
porque só tu assim me chamavas...
e encontrava-te!

nunca mais o ouvi, nem sei imitá-lo, nem o consigo lembrá-lo em sons na minha cabeça
mas sei que se um dia o ouvir, de uma outra boca, me irei voltar para trás e procurar
incessantemente a boca doce que imite tão querido e doce chamamento

31.8.08

Vai chover

O ar está pesado...
Não sentes?
O mundo está estranho...
Reprimido, em stand-by...
Não sentes?
Está... esquisito...
As pessoas num corre-corre
sem tempo algum para sentir
sem tempo para se aperceber
que algo está a acontecer


Será que vai chover?
Ou já chove e com as pressas
não deu tempo para perceber

29.8.08

A caminho...


Voltei ao bichinho da genealogia mas de uma forma diferente. Sem pai para mostrar as minhas conquistas e fazer um brilharete, sem família que sinta o que sinto da forma intensa que sinto.


Voltei ao bichinho por mim e para mim, sem qualquer objectivo final apenas o de sentir o caminho. Fazer o meu percurso, aprendendo sentindo o caminho dos meus ascendentes.


Voltei ao bichinho investigando história, contos e lendas fazendo uma festa e um urra! de vitória com qualquer novo dado adquirido. Mas a festa de arromba é quando me reconheço em traços bem ténues, nas características e vida dos meus ascendentes desconhecidos.

Estranho, mas fascinante...


Faço esta viagem em mim ao mesmo tempo que preparo a minha viagem de reencontro com uma investigação exaustiva que me tira horas de sono. Não quero ir visitar igrejas, catedrais ou outros locais de interesse cultural ou turístico. Quero ver onde nasceram, caminhar nas ruas que percorreram, inspirar o mesmo ar, sentir os mesmos cheiros, alimentar-me das mesmas comidas. Quero sentir o que sentiam. E ontem, no caminho para casa, ao pensar na viagem de daqui a uns dias, o que me completou entre locais a visitar, ruas a percorrer, foi a imagem de mim deitada no chão de um vale, no meio do nada, com as mãos a sentir a terra, a olhar para o céu, inspirando e vendo as serras.




27.8.08

Crazy Me

Falta a luz, fazem-se filhos. Há crise, aumenta a imigração. Falta a àgua, o cheiro aumenta, a paciência esgota-se, começa a discussão. A perseguição faz com que os perseguidos corram mais rápido, a descontracção com que outros descontraídos apareçam. O casual desleixo por descontracção dá trabalho quando a rotina diária volta. As férias implicam retorno ao reboliço do trabalho. O trabalho não significa necessariamente férias. Volto de férias, a alegria aumenta pela segurança estranha da organização e rotina, passam-se uns dias, visualizo as próximas e projectando-as abre-me o apetite.

De maluco e louco todos temos um pouco. O pouco de maluco em mim, é pouco ao ponto de me deixar louca... saudavelmente louca. Duh!

25.8.08

Vazio da casa saudade

Não sei se foi o fotógrafo, o deitar-me tarde dias seguidos, sem descanso diário, o dar por mim hoje a ver nascer o dia, sem ter dado pelo tempo passar. Não sei se é do cansaço da intensidade destes últimos dias, mas os dias dez e onze voltaram a mexer em mim, a tocar-me, revivendo em flashes os únicos momentos que teimo em não me recordar. Digo a boca cheia que não estou triste, e não estou, muito pelo contrário, que até nem saudades sinto, porque te sinto sempre em mim, mas hoje o nascer do dia fez-me engolir apressada a palavra saudade. Sinto, muitas... tantas que se me torna impossível identificá-las.

A saudade de ti é uma casa em mim plenamente habitada. Vives em mim e se sais para dar uma volta, o vazio da casa saudade mostra-me o quanto me fazes falta.

Mas não te preocupes, estou bem, com rumo e vontade de percorrer o mundo, com um sorriso sentido na face. Apenas fico apreensiva quando sais sem dar cavaco a ninguém. O que vale é que as tuas voltas são sempre curtas. Love U

23.8.08

Paraíso na terra


Porque há dias inesquecíveis e o de ontem foi um deles, mesmo com apenas 3 horas de sono, mesmo com o estômago às voltas, o céu, o mar e a companhia deram cabo de tudo o que não tinha valor.

22.8.08

Frases que ficam

Foi lá fora buscar os ausentes para ver os presentes - Maria
Há-de chegar aos 60 anos impossível - João
Aquele senhor tocou-te mesmo. Reavivou muitas recordações - Azul
Estás um borrachinho, gostei mesmo de te ver - Carlucci
E a miúda? - Dav
Que tu disse? - Pequena lua
Mãezinha, podes trazer o fatobanho cor de rosa? - Pequena Lua
O joaquim anda a conversar comigo - Moi
Dá vontade de mergulhar nas suas vidas - Maria

Uma é sete euros, mais do que uma é 3 euros. Fica mais barato... (...) A Nikon roubaram-me, esta é antiga, mas não nas minhas mãos. - Fotógrafo no Bairro Alto

20.8.08

Uma pitada...


Das férias que ainda não terminaram :)

17.8.08

Orange


Passamos o primeiro quarto da vida encantados e fascinados com tudo o que é novidade e brilha, o segundo quarto da vida chateados e aborrecidos com a incompreensão dos terceiros quartos, o terceiro quarto da vida saudosista a pensar nos momentos doces do primeiro quarto, a rir das asneiras agora divertidas do segundo quarto de vida e a tentar encontrar o nosso verdadeiro lugar na vida. No último quarto? Com a memória desgastada com tanta hiper-valorização desmedida, agarramos no primeiro quarto e saboreamo-lo. Do segundo quarto até as grainhas engolimos. Do terceiro perguntamos - Quantos gomos é que afinal havia? - e no quarto doce ou azedo, por ser o último gomo da nossa vida saboreamo-lo morosamente como sendo o primeiro e doce encantador gomo da nossa vida.


Quantos gomos tens? Saboreia-los todos por igual? Saltaste um? Ou ainda vais no primeiro? Eu?

Acho que ando a petiscar de todos em igual medida...



Medos

Em pequena via sombras e figuras em todos os relevos que eram levemente iluminados pela luz do corredor que pedia para ficar sempre aberta. Todas as noites tapava a cabeça com o lençol deixando apenas uma nesga para respirar. De manhã quando acordava com a Rosa a trazer-me papa nestum com mel, dizia-me sempre docemente: "oh menina, quando é que deixa de ter medo e de se tapar assim inteirinha? Nem sei como é que respira...". De noite sempre que saía da sala e tinha de percorrer o corredor para os quartos, o método repetia-se... Abre a luz, volta a traz para apagar a última, vira-te rápido, não olhes para trás, passa pela última luz que acendeste, abre a outra, volta atras para apagar a última, vira-te rápido, não olhes para atrás, passa pela última luz e abre a luz do quarto. Era sempre assim... Um dia, anos mais tarde, a Rosa foi-me levar a papa logo pela manhã e a luz do corredor estava apagada e eu com a cabeça destapada. Cheia de orgulho disse-lhe "Vês Rosa? Já sou crescida". Passei a adorar dormir no escuro cerrado, mas a ginástica de luzes do corredor, de vez enquando ainda ocorria. Mas achava que não mais tinha medo do escuro. Mas há poucos dias de repente e no meio do nada vi que tinha. Não do escuro escuro, mas do escuro de lugares desconhecidos. No meio do medo que descontrolavelmente me percorreu chegou a força que o venceu. "Pensa no teu pai, pensa no teu pai!" e aos poucos o medo desapareceu. Não voltei a sentir esse tipo de invasão do meu espaço até há uns dias quando percorria o castelo de Tavira e dei po mim de repente numa rua estreita e subitamente escura durante o dia... do lado esquerdo as escavações arqueológicas do antigo palácio Corte-Real. Primeiro o coração a bater freneticamente e um segundo depois o medo dispersou e virou curiosidade e encanto... sempre me fascinou a arqueologia e mais me fascina pensar que por debaixo das nossas casas existe tanta história, tantas casas e pegadas de alguém.

Agora estou numa varanda debaixo de um céu escuro e estrelado com uma lua cheia que ontem esteve temporariamente vazia e tão igual à minha, e penso - tenho medo? - oh...de tanta coisa! E se calhar o escuro é o menor deles... Mas hoje mais do que nunca sei e confio na mão que me defende e me acarinha.

16.8.08

Bola de Berlim com creme e afins

De pés enfiados na areia quentinha, a olhar um céu doce azul com nuvens repentinamente colorido com uma enorme e gigante manga a anunciar Martini Rosato, transportada como a medo por um helicopetero e não pelas habituais avionetas, enchi-me de saudades dos momentos de infância em que todas as crianças e adultos/crianças corriam pela praia esbaforidos para tentar apanhar os presentes quentes de verão que caíam do céu. Lembro-me de apanhar de tudo um pouco, desde míseros flyers publicitários, bolas de praia nívea e T-shirts, muitas t-shirts. Tinha a sorte de um dos amigos de longa data do meu pai ser um dos primeiros pilotos a sobrevoar as praias cheio de presentinhos, razão pela qual cheguei a ter uma manga a encher o meu quarto durante uns dias. Mas sem dúvida alguma até um flyer era mais interessante se por mérito o tivesse conquistado. Nessa altura, os pais deixavam-nos correr pela praia fora sem medos. Não sei porque é que deixaram de atirar brindes para a praia, se por uma bola vazia nívea ter acertado na cabeça de alguém importante ou se calhar um flyer golpeou a vista de um outro alguém ou se uma criança menos desenrascada teve dificuldade em encontrar o seu caminho. Nessa altura as bolas de Berlim eram bem apregoadas e as crianças (não os pais) praticamente engoliam o senhor velhinho e queimado pelo sol que com um joelho no chão tentava a custo dar cumprimento a tantas solicitações e ensinando ao mesmo tempo o "quanto custa" e "o teu troco é...". E... haviam bolas de Berlim COM CREME! Não me lembro do dia em que eu ou outro amigo de praia tenha ficado indisposto por a comer... Nessa altura os brinquedos de praia eram raros, balde e pá, ou nenhuns. As brincadeiras centravam-se quase sempre na aventura da descoberta e as misteriosas caminhadas de praia. Ao final de um dia inteiro na praia, estava tudo deitado em grupos pela praia fora.

Em crianças tínhamos o nosso complexo beach linked in tradicional e da forma mais salutar possível. Hoje a praia é cada vez mais um reflexo da individualidade citadina. Leitores de MP3 a rodos, conversa pouca e pouco convívio... a tentativa de reencontro da paz perdida no meio da cidade. Podem já não haver bolas com creme (embora já tenha encontrado algumas, mas não digo a ninguém aonde. É o meu segredo numa tentativa vã de tentar impedir que o ridiculo se propague...), podem não existir presentinhos do céu.... mas graças a Deus ainda há gente que preserva o convívio.

Aos doces dias quentes e sempre supreendentes do verão!

Destruam o lixo, não os doces momentos da vida!

12.8.08

Lovely

Porque é quando não temos tabaco que nos apetece fumar mais.
Porque é quando não temos telemóvel que nos lembramos que temos a quem ligar.
Porque é quando não temos temos computador que nos lembramos do tanto que poderíamos fazer.
Porque é quando não tenho o meu moleskine que me apetece tanto escrever.

Porque é quando não temos aquilo que tomamos como banal e certo na nossa vida, que lhes damos o devido valor... e aprendemos que tudo pode ser tão mais simples e doce na vida se levado com conta, peso e medida.

Nesta noite morna por debaixo de um céu estrelado, encontrei uma caneta no fundo da mala, um canhoto do pingo doce no meio da carteira e quando já não tinha mais espaço para escrever o barman chegou com a conta do café. Um euro e meio que não me importei nada de perder.

Encontra o mais doce nas coisas, mesmo que tudo pareça mal, porque ao final do dia vais ver que a tua vida é tudo menos banal. Apenas depende da forma como a olhas.

(e a escrita parou mas por um ocaso voltou)

Coisas doces? Há segundos atrás, pouco antes das doze badaladas, estava eu a navegar via telemovel pelos meus últimos posts neste blog. Mesmo no começo da leitura do "Sim, foi à tua maneira" o homem ali no palco, que em nada tem a ver com o Frank Sinatra, começou a cantar o My Way. Que melhor final de noite, neste terceiro dia 11? Lovely...

11.8.08

Mirror

Podia falar de imensa coisa sobre estes últimos dias, até porque o livro de cabeceira destas férias de verão é o Coca-cola Killer...

Mas só me apetece dizer uma! A única que não obriga os meus neurónios a funcionar, e que mesmo assim é uma certeza...

Adoro o espelho do elevador do hotel. Faz-me parecer ainda mais alta e tããoooooo magra e elegante! Será por causa do Spa? Lá começa a cabeça a funcionar...

Xau, Fui!!!

7.8.08

Praia

Estendo a toalha
tiro as sandálias
tiro a camisola
deslizo a saia
Abro o creme
despejo na mão
percorro pés
pernas, coxas
ventre e braços
deslizo as alças
envolvo ombros
percorro pescoço
olho para o lado

Poes-me creme?
Deito-me na toalha
sinto o sol a aquecer
fecho os olhos
e espero...

Sinto um arrepio
do creme a tocar-me
pela primeira vez
Adormeço o corpo
ao sentir o creme
percorrer de vagar
cada vértebra
estacionando em
espinha
de cada vez
em despique lento
com outro polegar
pela via rápida
ansioso por optar
barlavento? ou
sotavento...

um último suspiro
devorando mais um
cornetto de morango
Uma música, o calor
com amigos e livros
Sem trabalho, em paz
sem rotinas, despertador
sem pressa de chegar
a qualquer lado
demorando em lugares
sem relógio, computador
nem conselhos a corações
despedaçados

apenas isso paz, calma
a curtir o meu Eu
que anda sempre
e para qualquer lado
bem acompanhado

ONE

6.8.08

Da minha praia


Já sonhei com histórias de mil e uma noites, onde dançava esvoaçante ao som da música numa tenda cheia de tantos novos sonhos, brilhos, cheiros e intensos, transparentes tecidos...

Já percorri caminhos sinuosos debaixo de um sol intenso, de vidros abertos, música aos berros, cabelos ao vento seguindo o rasto do que os sonhos me diziam ser o meu destino...



Já não sonho como sonhava, já não espero encontrar o que esperava.
Mas sonho...
outros sonhos
Mas percorro...
outros caminhos
de cara lavada


Desta vez voo de outra forma, voo no mesmo céu com uma asa partida
Mas voo...
noutro sentido
Mas procuro...
a minha praia
a minha saída


Voo e sei que nunca voarei sozinha...
os sonhos nunca me pregariam tal partida...


As jangadas flutuarão sempre... para o mais incauto, o mais azarado, o mais desprevenido.
Eu voarei sempre, sempre atenta a qualquer mudança de correntes acautelando o teu caminho...



Pic: Black-Moon-Kitten

4.8.08

E digo eu...

Dizes tu... e eu digo que a madrugada de Domingo foi das madrugadas estranhamente mais intensas da minha vida. Não estou cansada de copos, música e dança. Fiquei exausta pela intensidade dos momentos, pela complexidade das situações mais simples, pelas decisões simples que se tornaram complexas de tomar, e pela liberdade. A música ao inicio da manhã era uma treta, mas até ela me embalava nos meus pensamentos alucinantes, que ao serem interrompidos por conversas repentinas de estranhos, recebiam um Ya!, desconversando... Sabe bem ser-se quem é, sem preconceitos. E eu, a senhora sempre sorridente, deu-me para em alguns breves momentos, não me apetecer ser o sorriso sempre presente. Ah!!!!!! E soube-me tão bem! Da mesma forma que soube bem o aconchego da manhã a nascer dentro do táxi. Da viagem longa que foi curta. Do silêncio cúmplice que precisava. No momento em que encostei a cabeça na almofada, o meu corpo parou e a minha cabeça continuou a andar... e foi aí que a decisão então complexa, se tornou tão simples de tomar. Por amor...
E sabes, sinto-me com fé na minha decisão e tão cheia em mim por todo o percurso destas horas e acima de tudo por acreditarem em mim. É essa a minha grande vitória... consegui que a guerra acabasse com nenhumas baixas. O Amor conseguiu juntar a Vontade, a Razão e a Responsabilidade, e juntos chegaram a um consenso e começaram a sua caminhada em direcção ao cume daquele monte.

3.8.08

Mistério

Se descrevesse a minha cabeça nestas últimas 22 horas, seria a maior e mais gigantesca confusão. Uma guerra de titãns entre a vontade, a responsabilidade, o amor e a razão. Começou por estar a vencer a vontade, sobrepos-se-lhe a razão e lutam agora juntas a responsabilidade e o amor. A guerra ainda não acabou e já houve vencedores e vencidos. Mas há um que assiste do topo de um monte, ileso, e o qual nunca será vencido, o senhor destino.

"Yesterday is history, tomorrow is a mystery, but today is a gift. That is why it is called the present"
in Panda Kung Fu

1.8.08

Certezas

Para quê procurar certezas, se fugimos e temos receio da única certeza que temos?
Aceita a grande certeza e aprende com ela.
A vida é essa dádiva. A busca incessante de pequenas certezas que nunca serão totalmente concretizadas. Porque até a maior certeza é inexplicável.
Uma aventura...